
Eu sabia quase nada sobre quase tudo, mas descobri naquele dia que o fundo do poço da minha ignorância tinha um alçapão – e ele se abria para um campo de conhecimento que não me oferecia nem o consolo duvidoso de uma compreensão superficial. Ali as palavras, e mesmo as letras isoladas, escondiam sentidos obscuros. Não era como aprender uma matéria difícil na escola ou ver um filme cabeça tentando entender a moral da história (ou se havia mesmo uma história sendo contada). Era mais como visitar um planeta distante e descobrir uma forma de comunicação apenas vagamente semelhante à que estávamos acostumados.
Era agosto de 1985, e eu estava no segundo ano do curso de Psicologia quando foi realizado o primeiro grande congresso de lacanianos em Porto Alegre. O line-up de conferencistas era um pequeno dream team da psicanálise mundial, comentava-se no bar da faculdade. Claro que a gente tinha que ir, mesmo que a maioria de nós tivesse lido muito pouco (e entendido menos ainda) de Lacan.
Movida por aquele tipo de intuição que nos leva a seguir a rota de quem a gente mais admira, meu coração de estudante já era totalmente lacaniano. Todas as outras correntes da Psicologia, inclusive as que eu mal conhecia, me pareciam irrelevantes e/ou ultrapassadas. Os colegas mais inteligentes, os alunos um pouco mais velhos que já se destacavam, os professores mais brilhantes, todos eram lacanianos. Ou assim me parecia. Era esse o percurso que eu teria seguido, imagino, se poucos meses depois de ter sido apresentada à proverbial ininteligibilidade da teoria lacaniana eu não tivesse me apaixonado pela arte de escrever para ser compreendida pelo maior número de pessoas possível. Abandonei a Psico e fui estudar Jornalismo.
Editora do suplemento literário do New York Times, a jornalista Emily Eakin chegou à universidade mais ou menos na mesma época que eu (ela em Harvard, eu na UFRGS) e também encontrou um ambiente em que a psicanálise lacaniana, o Estruturalismo e o pós-Estruturalismo dominavam as conversas – para o bem e para o mal. Eakin acaba de lançar um livro delicioso, The Frenchmen, mistura de memórias de juventude, história das ideias e bate-papo filosófico. No livro, a autora conta como se apaixonou – e desapaixonou – pela “teoria” e fala sobre a vida de oito pensadores incontornáveis da segunda metade do século 20: Foucault, Derrida, Lacan, Barthes, Althusser, Deleuze, Guattari e Paul de Man.
A “teoria” saiu de moda nos cursos de Humanas, e eu continuo penando para entender qualquer parágrafo assinado por Lacan, mas a desconfiança que esse grupo de pensadores ajudou a lançar sobre algumas das certezas do século 20 continua mais viva do que nunca. Para o bem e para o mal.






