
A escritora brasiliense Paulliny Tort acaba de lançar o melhor romance para quem anda precisando de um detox urgente – não apenas de tecnologia, mas de todo o cortejo de horrores associados ao século 21.
No livro Os Imortais (Editora Fósforo, 232 páginas), nenhum personagem está preocupado com inteligência artificial, big techs ou dietas hiperproteicas. As angústias do dia a dia são mais elementares: fugir de uma manada de javalis enfurecidos, colher ou caçar a próxima refeição, encontrar um lugar quentinho para passar a noite com alguma tranquilidade. As ferramentas disponíveis vão pouco além do odre (recipiente feito de pele de animal usado para transportar líquidos) e do chuço (uma haste de madeira com uma ponta de pedra lascada). Nossos heróis já dominam o fogo, o que ajuda muito quando se está em plena Era do Gelo, mas seus recursos de comunicação são limitados. Não fossem a verborragia e a curiosidade insaciável dos seus primos de origem africana, sua história jamais teria sido contada.
São muitos os acertos que ajudam a entender por que um improvável romance sobre neandertais acabou se tornando um dos grandes acontecimentos literários do ano no Brasil. O primeiro e mais importante talvez seja o de o livro ter superado, lindamente, o desafio da linguagem. Afinal, como contar uma história sobre uma espécie extinta que se comunicava de forma rudimentar? Um passo em falso, e o romance inteiro soaria inverossímil, mas a narrativa soa tão atemporal que o leitor fica absolutamente convencido de que era daquele jeito mesmo que os neandertais pensavam e sentiam.
Não faltou pesquisa. Jornalista com passagens pelos cursos de Biologia e Engenharia Florestal, Paulliny Tort lança mão do conhecimento científico mais atualizado sobre a pré-História para retratar um clã de Homo neanderthalensis, espécie que desapareceu do planeta há cerca de 30 mil anos – deixando traços do seu encontro conosco no nosso DNA. Mas todo esse cuidado teria sido em vão se não viesse acompanhado de doses generosas de imaginação. Pode colocar na mala e levar para as férias de julho sem medo. É ficção de primeira linha.
Comecei dizendo que o livro de Paulliny Tort poderia funcionar como válvula de escape daqueles assuntos com os quais os Homo sapiens andam obcecados ultimamente – a começar pela ideia de que nossa espécie está se tornando obsoleta. Na verdade, é impossível ler sobre os neandertais sem pensar sobre a nossa própria luta pela sobrevivência. Para sempre, os humanos já deveriam ter aprendido, é sempre por um triz.




