
Existe um Irã remoto, habitado por pessoas distantes e abstratas que chegam até nós por meio do noticiário – principalmente em tempos de guerra. E um outro, nítido e pulsante, retratado por Marjane Satrapi.
Ressalva obrigatória: quase tudo que eu sei sobre o Irã, devo ao excelente cinema que o país nunca deixou de produzir, mesmo diante das circunstâncias mais adversas, e Abbas Kiarostami, para o meu gosto, é um dos 10 maiores cineastas de todos os tempos. Dito isso, foram os relatos autobiográficos de Marjane Satrapi que me mostraram o tamanho do estrago causado pela chegada dos aiatolás.
Não que as coisas fossem fáceis antes da revolução de 1979. No início de Persépolis, a escritora narra o clima de insatisfação e revolta que antecedeu a queda do regime autoritário e corrupto do Xá Reza Pahlevi. O consenso, pelo menos dentro da sua família, era o de que qualquer mudança tinha que ser para melhor. Não foi o que aconteceu, como sabemos. O regime teocrático afetaria de forma dramática a vida cotidiana de todos os iranianos, mas seria especialmente brutal contra mulheres e meninas como Marjane.
Preocupados com a segurança da filha, os pais da escritora decidiram mandá-la estudar em Viena quando ela chegou aos 14. Parafraseando Tom Jobim, a vida em Viena era boa, mas era uma merda. Já a vida em Teerã era uma merda, mas era boa. Em 1989, Marjane decide voltar para o Irã. Estuda, casa, mas não consegue se habituar com a falta de liberdade e de perspectivas. Em 1994, ela se divorcia e se muda definitivamente para Paris, ponto em que a narrativa de Persépolis se encerra e a sua bem-sucedida carreira se inicia.
Marjane Satrapi partiu na semana passada, aos 56 anos. A nota divulgada pela família diz que ela “morreu de tristeza, um ano após o falecimento de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida". É difícil ler essa nota sem lembrar da trama de Frango com Ameixas, a graphic novel que ela publicou em 2004 e levou para o cinema em 2011. A história se passa em Teerã, em 1958, e começa quando a mulher de um músico talentoso, em um acesso de raiva, destrói seu instrumento preferido. Incapaz de encontrar um substituto que produza a mesma sonoridade e sem conseguir viver sem tocar, o músico deita-se em sua cama e decide esperar pela morte – até que ela finalmente o alcança, apenas oito dias depois.
Assim como Gosto de Cereja (1994), obra-prima de Abbas Kiarostami, Frango com Ameixas é uma história sobre suicídio que acaba celebrando a beleza – e a impermanência – de tudo aquilo que nos faz amar a vida.



