
Sonhos de trem (2025), da Netflix, é um filme bonito e melancólico. Se você já assistiu, talvez tenha passado alguns dias ainda embriagado pelas paisagens selvagens lindamente fotografadas pelo brasileiro Adolpho Veloso, pelo desempenho contido de Joel Edgerton e Felicity Jones, pela canção espectral de Nick Cave. Talvez, como eu, também tenha ficado com a sensação de que por trás daquele fiapo de história (um lenhador decide retirar-se do mundo depois de enfrentar uma tragédia doméstica) algo profundo e misterioso estava sendo narrado.
Precisei ler o romance de Dennis Johnson (1949-2017) para que essa corrente subterrânea ficasse um pouco menos turva. O mais inesperado foi que terminei o livro convencida de que o protagonista de Sonhos de trem (2011) é uma espécie de alma gêmea de Riobaldo, o jagunço que reflete sobre o sentido da vida na obra-prima de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (1956). Vamos ver se eu consigo convencer vocês em três parágrafos.
O livro de Dennis Johnson saiu no Brasil pela Companhia das Letras em 2012, mas, por algum motivo, está fora de catálogo já há algum tempo. Uma pena. Johnson é um daqueles escritores mais amados pelos colegas de ofício do que pelo grande público. Seu livro mais elogiado pela crítica é Filho de Jesus (Editora Todavia), uma coletânea de contos que você definitivamente não deveria dar de presente para o seu primo que curte histórias bíblicas – o título vem de um verso da canção Heroin, do Velvet Underground, se é que vocês me entendem.
Em Sonhos de Trem, Johnson conta a história de Robert Grainier, um homem que, como Riobaldo, nasceu longe demais das capitais, na década de 1880. Como Riobaldo, Robert vive junto à natureza, imerso em um mundo em transformação. Em breve as florestas vão desaparecer, os carros vão substituir as carroças, prédios cobrirão as cidades. O personagem viverá o suficiente para ver a corrida espacial pela vitrine de uma loja de aparelhos de TV, mas, em essência, continuará pertencendo a um mundo em que os registros da imaginação e da realidade facilmente se embaralham. Robert atribui seu destino trágico a uma maldição. Quando perde a filha, constrói uma maneira de imaginar que em algum lugar, de alguma forma, ela ainda está viva.
Enquanto isso, do outro lado do mundo, Riobaldo recorre a um interlocutor da cidade grande, letrado, para convencer a si mesmo de que o diabo não há, e o que existe é só o homem humano. A grande diferença entre os dois personagens é que Riobaldo abraça a dúvida, ou é abraçado por ela, enquanto Robert prefere permanecer no precário conforto de um mundo encantado pelo mistério. De um jeito ou de outro, os dois parecem se fazer a pergunta mais antiga e irrespondível de todas: por que as coisas acontecem de um jeito e não de outro?



