
Na elegante definição de Italo Calvino, clássico é o texto que nunca termina de dar o seu recado. Não interessa quando ou em que estilo a obra foi escrita, mas sua capacidade de continuar conversando com os leitores. Sonata a Kreutzer (1889), uma novela curtinha de Tolstói, já era um clássico quando meu avô foi inventado, mas antes de entrar para o cânone literário o livro arrepiou os cabelos dos cidadãos de bem. Foi preciso um tête-à-tête entre Sofia Tolstói, mulher do escritor, e o czar Alexandre III para que sua publicação fosse autorizada como parte das obras completas de Tolstói – mas não como volume independente.
A censura parcial acabou aumentando o interesse pelo novo livro do autor de Guerra e Paz (1869) e Anna Karenina (1877) – àquela altura já famoso no mundo todo. Nos Estados Unidos, onde a carolice literária grassa até hoje, a publicação de Sonata a Kreutzer também foi proibida, o que não impediu que algumas editoras driblassem a censura, aproveitando o perfume de escândalo em torno da obra para turbinar ainda mais as vendas: “Leia o livro proibido pelo governo russo e pelos Estados Unidos!”.
Não é difícil entender por que a novela chocou tanta gente. Na superfície, trata-se de mais uma trama de ciúme com final trágico, como tantas em que a mulher, tendo ou não traído o marido, acaba definhando (D. Casmurro, Primo Basílio), se matando (Madame Bovary, Anna Karenina, São Bernardo) ou sendo morta (Otelo, O Túnel). Era essa a memória que eu guardava da primeira leitura: a paranoia do marido, as discussões violentas do casal, a assassinato, a absolvição. Relendo Sonata a Kreutzer agora, me dou conta de que a narrativa vai muito além dos dramas de ciúme convencionais – tanto na investigação da psicologia masculina quanto no retrato da posição da mulher na sociedade. Tolstói diz ali o que nunca havia sido dito antes com tanta ênfase: o amor é uma ilusão e só o desejo é real, casamentos são destinados ao fracasso, a maternidade é uma armadilha, as mulheres são tão oprimidas quanto escravos e judeus. Pozdnyshev, o marido ciumento que narra a história, está consumido pela culpa e pelo desespero. No jorro de sua confissão, há afirmações delirantes, mas também muita lucidez.
Sonata a Kreutzer, que nunca deixou os leitores indiferentes, ganhou novos sentidos agora que o crime de Pozdnyshev tem nome: feminicídio. Mais de 130 anos depois de Tolstoi afirmar, através do discurso atormentado do seu personagem, que os homens precisavam mudar a maneira como viam as mulheres, o feminicídio continua uma praga mundial. O clássico de Tolstói, infelizmente, nunca foi tão atual.





