
Não sei bem o que eu imaginava, mas não era nada disso. Se eu tivesse feito uma aposta no mercado de futuros no dia 13 de maio de 2006, prevendo como eu e o mundo estaríamos em 2026, quando eu chegasse aos 60, teria perdido dinheiro. Talvez eu adivinhasse o táxi sem motorista e a reabilitação do ovo, mas jamais teria previsto as campanhas contra a vacinação ou a volta da palavra fascismo às conversas do dia a dia.
Não que eu imaginasse um mar de rosas pela frente, longe disso, mas há 20 anos eu ainda acreditava que alguns assuntos estavam mais ou menos resolvidos. Mesmo que tudo piorasse, pioraria de um jeito inédito. Minha geração viu muita coisa dar errado, como todas, mas não tinha experimentado essa sensação de déjà vu histórico: em meio a todo o avanço tecnológico dos últimos anos, um surto de nostalgia reacionária.
Em contrapartida, algo que se esvaziou nesse período, mais ainda do que as minhas reservas de colágeno, foi a esperança no futuro. Não um futuro melhor: qualquer futuro. Não era algo que eu gostaria de imaginar para minha filha, que ainda era criança em 2006, mas o pessoal da idade dela ganharia o melancólico apelido de Geração Ansiosa – e não apenas porque seus pais liberaram a farra digital antes da hora. As dúvidas com relação à Inteligência Artificial, a crise no mercado de trabalho e a lentidão das respostas às mudanças climáticas plantaram uma enorme nuvem preta no horizonte dos sessentões do futuro. Quem provavelmente não vai estar aqui para conferir se havia motivo para tanto pessimismo acaba encarando a própria finitude com mais serenidade.
Lamento muito que o baixo astral tenha tomado conta das gerações que vieram depois da minha. Acho triste que eles transem menos, se aventurem menos, tenham menos amigos de carne e osso e que tudo isso se materialize em alienação política e apatia existencial. Não sei como chegamos a este ponto, mas tenho certeza de que parte da culpa é nossa.
Ironicamente, vejo a minha geração transando mais, se aventurando mais, aproveitando a companhia dos amigos de carne e osso sempre que possível e se beneficiando do prolongamento de anos saudáveis proporcionado pela época em que nascemos. Ter 60 anos não é um parquinho de diversões, mas é melhor agora do que há 20 anos, acho. E é melhor ter 60 anos do que nunca ter. Por todos os meus amigos queridos que não tiveram esse privilégio, pretendo continuar cantando com Mercedes Sosa até a última gota de futuro: “Gracias a la vida”.




