
Tupy or not tupy that is the question. A frase é uma das mais lembradas do Manifesto Antropofágico (1928), profissão de fé do Modernismo brasileiro que sugeria que o país não deveria rejeitar a cultura estrangeira nem imitá-la sem critério, mas devorá-la, digerir o que ela tem de bom e eliminar o resto, criando assim algo novo e original. Pense Bossa Nova, Villa-Lobos, Cinema Novo, Tropicália, Manguebeat, Funk carioca, Rap paulista, Milonga gaúcha…
(Já uma das frases menos lembradas do Manifesto repete sete vezes, sem muita explicação, uma única palavra: “Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros”. Premonição?)
Pois acabei lembrando do Manifesto Antropofágico, vejam só, ao ler o roteiro de Dark Horse. Ao adotar um idioma estrangeiro (com sotaque sabe-se lá de onde, a julgar pelo trailer), devorar com ingenuidade a estética hollywoodiana, eliminar tudo que soa autêntico e dejetar uma paçoca anódina – irrelevante para o resto do mundo, irreconhecível para os brasileiros – a produção "internacional" encomendada pela família Bolsonaro entra para a história do cinema (nacional?) como a mais constrangedora confissão de subserviência cultural de que se tem notícia. Um Manifesto Antropofágico no sentido inverso: se alguém foi devorado aqui, com certeza não foram os gringos.
Era previsível que um filme idealizado para ser lançado às vésperas das eleições forçasse a mão na fantasia. Jair Bolsonaro é descrito como "alto, bonito, de sorriso fácil, sagaz, impetuoso e engraçado". Suas qualidades: amar a família, temer a Deus e ser "contra o sistema". Seus inimigos: os jornalistas, a esquerda e a "elite" (uma das cenas mais inverossímeis, de um filme cheio delas, mostra o candidato recusando uma oferta de dinheiro para a campanha). Plataforma política: vai saber. Ao mesmo tempo em que o roteiro destaca o aspecto "sincerão" do personagem, a surpresa é que há algum esforço para negar que Bolsonaro seja racista, homofóbico e misógino (uma evocação do embate com Maria do Rosário, "Gloria de Rosales", chega a transformar o agressor em vítima) – talvez para não chocar o gosto médio de uma improvável audiência estrangeira.
Entendo tudo isso. As omissões e distorções históricas, o maniqueísmo, a hagiografia e até o descalabro estético. O que mais me choca, no final das contas, não é o financiamento suspeito (surpresa nenhuma) ou a celebração do "homem cordial" que ama a própria família – e nenhuma outra. O que mais me espanta é a dissonância cognitiva e a falta de senso de ridículo encapsuladas em uma única frase do roteiro: "Brazil above everything".


