
O acaso não morreu, mas anda desprestigiado. Livros que não estávamos procurando, restaurantes que ninguém recomendou, pessoas que conhecemos porque viramos na esquina errada na hora certa – enfim, as linhas tortas da vida – são encarados hoje como desvios de rota desnecessários.
Os oráculos que respondem todas as perguntas e resolvem todas as paradas tornaram obsoletos os encontros aleatórios, os becos sem saída, os descaminhos. É como se toda a tecnologia criada pelo homem desde a primeira machadinha servisse ao único propósito de diminuir as chances de nos distrairmos com o que não estava previsto. O inesperado perdeu a moral.
Agora o negócio é ir direto ao ponto. Direto ao endereço certo com o GPS, direto à paquera mais eficiente com os sites de namoro, direto ao que nos agrada (assuntos, pessoas, diversão, opiniões políticas) graças ao algoritmo – que por sua vez não faz nenhuma questão de nos ver adquirindo novos hábitos. O resultado é essa sensação de que estamos empanturrados de coisas que “interessam” (a maioria delas à venda) e carentes de espanto (que às vezes é de graça). As primas de Sapucaia não nos visitam mais como visitavam antes.
Primas quem? Essa Sapucaia não é a do Sul, vizinha de Porto Alegre, mas a do nosso Norte, o Rio de Janeiro. As Primas de Sapucaia é o título de um conto de Machado de Assis sobre pequenos contratempos capazes de mudar um destino. O elogio do acaso como senhor da (nossa) história.
No conto, um rapaz se apaixona por uma moça casada – como era moda no final do século 19, a julgar pela literatura do período. Como não pode mandar mensagem pelo Instagram nem dar um Google para saber onde ela mora e que ambientes frequenta (o telefone mal tinha chegado à Corte), resta ao jovem enamorado contar com o acaso.
Para seu desconsolo, justo no dia em que surge a oportunidade de aproximar-se da amada, ele está acompanhado de duas primas que vieram de Sapucaia para passar uns dias no Rio de Janeiro. Lá se foi a chance de conhecê-la, amá-la, viver com ela o grande amor da sua vida.
Para piorar, a jovem acaba se envolvendo com um amigo seu, com quem tem o tórrido romance com o qual ele mesmo havia sonhado – mas que no fim também não dá muito certo.
No léxico machadiano, “as primas de Sapucaia” são a representação daqueles desvios inesperados que atravessam nosso caminho, para o bem ou para o mal: “Há umas ocasiões oportunas e fugitivas, em que o acaso nos inflige duas ou três primas de Sapucaia; outras vezes, ao contrário, as primas de Sapucaia são antes um benefício do que um infortúnio”.



