
Quem, como eu, foi apresentado ao conceito de robô assistindo à série Perdidos no Espaço aprendeu que existem dois modos antagônicos de lidar com uma máquina que executa tarefas humanas. No Modo Will (de Will Robinson, o caçula da família), o Robô é tratado com respeito e gentileza, como se fosse um amigo ou um irmão mais velho. No Modo Smith (de Dr. Smith, o vilão da história), o Robô não passa de um “depósito de ferro-velho”, uma “lata de sardinha enferrujada”, uma “baboseira mecânica” – merecedor, portanto, de tanta consideração quanto que seu primo menos prestigiado, o aspirador de pó volante.
Se você não mora no lado escuro da Lua, as interações com máquinas que emulam o comportamento humano provavelmente já fazem parte do seu dia a dia. Estamos todos, de um jeito ou de outro, aprendendo a lidar com robôs que não apenas sabem tudo sobre nós como nos dão bom-dia e nos mandam levar um casaquinho. Alguns usuários já chamam o computador de meu louro, confiando seus segredos mais íntimos à inteligência artificial e até se apaixonando por chatbots (Modo Will). Outros descobriram que podem descarregar a raiva contra-tudo-isso-que-está-aí xingando a mãe do ChatGPT ou gritando um cala-boca irritado toda vez que a Alexa se manifesta por conta própria (Modo Smith). Nada mais humano do que projetar sobre o que está à nossa volta – animal, vegetal ou mineral – aquilo que nos falta ou sobra.
Aqui em Dallas, já existem dois tipos de robôs circulando pelas ruas: os carrinhos de entrega de comida (desde 2024) e os táxis sem motorista (desde fevereiro). As redes sociais estão cheias de vídeos curtos registrando momentos de interação entre pedestres e os robozinhos entregadores. Isso porque esses carrinhos em forma de cooler às vezes pedem ajuda aos passantes para superar algum obstáculo inesperado na calçada. A maioria das pessoas se dispõe a ajudar e ainda tenta “acalmar” a criaturinha em apuros. Como se ele fosse um visitante estrangeiro ou um velhinho com dificuldades para caminhar. (Minha filha me disse que ao topar com um desses robôs sempre fica dividida entre o impulso de pegá-lo no colo e a vontade de sair correndo para o outro lado da rua.)
Mas nem todo mundo se comove com a marcha desajeitada, os faróis redondinhos ou o nome de gente estampado em uma plaquinha digital – detalhe que evoca a imagem de uma criança viajando sozinha de avião. Alguns passantes aproveitam a oportunidade para dizer na cara do cooler que não gostam dele, não vão ajudar coisa nenhuma e que ele não passa de uma lata de sardinha enferrujada que está roubando o emprego dos humanos.





