
Ainda está em cartaz em Porto Alegre, na Cinemateca Paulo Amorim, a melhor adaptação de um clássico da literatura que eu assisti nos últimos tempos. Corra para ver, se ainda não viu, a versão do diretor francês François Ozon para O Estrangeiro, de Albert Camus. (E se ainda não leu o livro, sempre dá pra dar um pulinho na Livraria Taverna ali ao lado.)
A adaptação anterior mais conhecida é a que Luchino Visconti dirigiu em 1967, com Marcello Mastroianni no papel de Meursault – o homem que é preso, julgado e condenado à morte por um assassinato cometido à luz do dia e sem motivo aparente. Visconti já havia dirigido O Leopardo (1963), a impecável adaptação de obra-prima de Lampedusa, mas errou a mão de um jeito formidável com Camus – da escolha de um ator inadequado para o papel à dificuldade de retratar as sutilezas de uma narrativa que é menos sobre um crime do que sobre o absurdo da existência.
Do ponto de vista de quem adora o livro, são muitos os acertos de Ozon: a elegante fotografia em preto-e-branco, o magnético casal de protagonistas (Benjamin Voisin e Rebecca Marder), a onipresença do sol como parte essencial da narrativa (como no livro), o uso moderado de offs (ao contrário do filme de Visconti), os silêncios eloquentes e, mais importante do que tudo, a maneira como o diretor foi respeitoso com a obra sem deixar de acenar para as ideias e a sensibilidade contemporâneas. É um equilíbrio complicado. Uma intervenção exagerada pode ser um desastre, tanto para os cinéfilos quanto para os leitores, mas evitar qualquer tipo de reinterpretação pode deixar o filme (e o livro) com cara de peça de museu.
François Ozon não esconde o jogo. Ao evocar, já na abertura, o modo como os filmes dos anos 1940 retratavam países colonizados, o diretor deixa claro que se trata de uma leitura “decolonial” de Camus, ou seja, que o filme está falando do passado (com uma reconstituição de época que chama a atenção pelos detalhes) sem deixar de lado as ideias do presente. Nesse sentido, o romance O Caso Meursault (2013), do escritor argelino Kamel Daoud, é uma referência sutil importante. Nesse excelente livro-homenagem, o árabe morto por Meursault ganha um nome, Moussa, e sua história é narrada por seu irmão mais novo, Haroun.
Não por acaso, Moussa Hamdani é o nome que aparece na lápide, iluminada pelo sol, que vemos na cena final do filme. O “árabe” anônimo de O Estrangeiro (e da música do The Cure, inspirada pelo livro, que toca nos créditos finais) ganha nome e sobrenome na nova adaptação – o que, sem trair a narrativa de Camus, talvez ilumine melhor algo que já estava lá.





