
Na intersecção imaginária onde os céus da ciência, da fé e da ficção se entrecruzam, duas figuras mitológicas femininas concentraram a atenção do planeta nos últimos dias. Ave Maria é o nome da espaçonave que leva o professor Ryland Grace (Ryan Gosling) para o espaço no filme Devoradores de Estrelas, segunda maior bilheteria do ano no mundo – atrás apenas do fenômeno Pegasus 3, visto por 80 milhões de chineses até agora. Artemis II é o nome da missão espacial tripulada que deve dar uma voltinha em torno da Lua nesta segunda-feira, dia 6 de abril, se tudo sair nos conformes.
O título original de Devoradores de Estrelas, Project Hail Mary (“Projeto Ave Maria”), tem uma origem mais profana do que pode parecer ao espectador brasileiro. A expressão surgiu em 1975, no futebol americano. Um jogador do Dallas Cowboys, católico fervoroso, depois de garantir a vitória do seu time na última jogada, disse aos repórteres que ao lançar um passe no último segundo da partida apenas fechou os olhos e rezou uma Ave Maria – cunhando naquele momento a gíria esportiva que passou a ser associada a jogadas que combinam desespero, longa distância e baixa probabilidade de sucesso. Ou seja, tudo a ver com a missão suicida que Ryland Grace é obrigado a encarar para tentar salvar o Sol e a humanidade dos “devoradores de estrelas”.
Antitrumpista (na medida em que celebra a cooperação global e interplanetária), cheio de referências a dois clássicos da minha adolescência (Contatos Imediatos e ET), com uma inesperada Mercedes Sosa na trilha sonora e uma mensagem final de gratidão aos professores, Devoradores de Estrelas, confesso, me ganhou. E olha que eu nem mencionei o Ryan Gosling.
Ártemis é a deusa virgem, caçadora, associada à Lua na mitologia grega. Por algum motivo, foi seu irmão gêmeo, Apolo, associado ao Sol, quem batizou as seis missões que levaram astronautas para visitar o nosso satélite entre 1969 e 1972. Significa. Agora chegou o momento de reparar essa e outras injustiças históricas. A bordo da Artemis II, Christina Koch deve se tornar a primeira mulher a entrar em órbita na Lua, abrindo caminho para que em 2028, quando a Artemis IV finalmente pousar na superfície lunar, uma astronauta possa dar esse pequeno grande passo para a outra metade da humanidade.
A ausência de frisos dourados na lataria e o fato de a missão espacial ter sido batizada com um nome que não é o dele, já seriam motivos suficientes para deixar Donald Trump ocre de raiva. Para piorar, a Artemis II carrega uma mulher, um homem negro e um estrangeiro na tripulação – além de toneladas de conhecimento científico.
Diversidade, ciência e cooperação é tudo que Trump gostaria de mandar para o espaço, mas não exatamente no bom sentido. Maria e Ártemis que nos protejam.




