
Depois de exercitar múltiplas formas de megalomania e desconexão da realidade em gestos e palavras, Donald Trump decidiu condensar seu ethos particular em uma única imagem – com uma mãozinha da IA, evidentemente.
Publicada em sua rede social no dia 12 de abril, e despublicada quando o desastre já estava instalado, a ilustração que associava o rosto do presidente a uma figura semelhante a Jesus Cristo provocou indignação nos Estados Unidos, principalmente entre seus apoiadores mais devotos: os devotos. Trump ainda tentou desconversar, argumentando que a imagem estava sendo mal interpretada e que o manto vermelho e a bata branca sugeriam que ele era um médico vindo dos céus para curar a Humanidade (do que mesmo?). Não colou.
Se em algum momento o governo dos Estados Unidos tentou justificar a enrascada em que se meteu adotando a retórica da “guerra santa” – houve relatos de militares se queixando de comandantes que se referiam ao ataque ao Irã como “parte do plano de Deus” – nos últimos dias a coisa toda ficou mais parecida com as paródias bíblicas do Monty Python e do Porta dos Fundos. Na quarta-feira, quando a indústria dos memes ainda estava ocupada reagindo ao Jesus Magatrônico de Trump, o secretário de Defesa, Peter Hegseth, puxou uma reza recitando uma falsa passagem bíblica extraída do filme Pulp Fiction. Para o governo, mais um vexame. Para os humoristas, uma nova graça alcançada.
Nessa barafunda em que se misturam o arcaico e o tecnológico, a guerra santa e a cultura pop, o lixo estético produzido por inteligência artificial e os dogmas religiosos, o Irã vem surpreendendo com sua capacidade de contra-atacar usando as armas do inimigo – como no vídeo feito com bloquinhos de Lego que acabou viralizando. “Se o Irã fosse capaz de fabricar mísseis destrutivos na mesma velocidade em que produz memes sarcásticos, o Comando Central dos EUA já teria se rendido”, comentou um articulista do jornal The Guardian na semana passada.
Nem um Anticristo de gibi teria coragem de postar uma imagem como o Salvador em pessoa horas depois de chamar o Papa para a briga publicamente. Soa como o apocalipse do bom senso, com trombeta e tudo. Mas o presidente não está sozinho ao abraçar o visual cafona da inteligência artificial. Longe disso. O Jesus Magatrônico reforça a identidade de Trump como alguém que desafia o bom gosto, ao mesmo tempo em que reflete nosso crescente fascínio pelo fast-food estético oferecido pela tecnologia. Atire a primeira pedra quem nunca usou uma ferramenta digital para se imaginar mais jovem, mais esbelto, mais bonito, mas qualquer coisa que não se é. Daí a se imaginar como Jesus Cristo, Napoleão ou Adolph Hitler, basta um prompt.



