
A estreia da série História de Amor: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette (Disney+), em fevereiro, criou o pretexto perfeito para o mais recente surto de “anemoia”, a saudade coletiva de tempos não vividos – neologismo cunhado por John Koenig no seu Dicionário das Tristezas Obscuras (2021). Nas últimas semanas, gente que nem sequer era nascida quando o Kennedy da hora era o filho de JFK (e não seu primo maluco que não acredita em vacinas) anda obcecada pela década que assistiu ao último suspiro da paz analógica.
Posso garantir aos mais jovens que quando eu estava lá, nos anos 1990, a última coisa que me passaria pela cabeça era imaginar que um dia alguém olharia para aquela época com inveja ou admiração. Talvez porque nenhuma pessoa normal olhe para os lados e pense que está vivendo no melhor e mais divertido dos tempos, mas também porque minha anemoia, naquele momento, ainda estava presa aos anos 1960, a década em que tudo parecia ter sido mais intenso e inaugural. Nascer na segunda metade dos anos 1960 era como chegar à festa depois que a bebida acabou.
Meus anos 1990 aportaram com algum atraso, em 1992, quando eu me formei e fui morar com meu namorado. E terminaram talvez um pouco antes do fim, em 1998, quando minha filha nasceu. Nesses seis anos, entre os 26 e os 32, eu já era adulta o suficiente para ser independente, mas não tanto que as responsabilidades acumuladas me impedissem de jogar tudo para o alto, sem culpa, se por acaso me desse na telha. É impossível lembrar dessa época sem alguma nostalgia dessa liberdade, talvez ilusória, e desse futuro sem hora para acabar. (Chegando perto dos 60, constato que a sensação de liberdade é um pouco parecida, mas o saldo reduzido de futuro exige uma administração muito mais consciente do tempo.)
Fora do meu infinito particular, o Brasil se despedia da inflação e se reencontrava com a democracia, guiado por uma nova Constituição. Era um recomeço, meio atrapalhado, mas um recomeço. O Muro de Berlim já havia caído e as Torres Gêmeas ainda estavam por cair, e nesse breve intervalo entre os problemas velhos e os que viriam houve, talvez, um breve soluço de otimismo no planeta – que coincidiu, para minha sorte, com os primeiros anos da minha vida adulta. Penso que não é a moda, a música ou a descomplicação de uma realidade menos conectada que provoca a anemoia dos mais jovens, mas aquele futuro do pretérito em que o otimismo ainda gozava de certa popularidade.



