
Estamos diante de um daqueles momentos em que Brasil e Estados Unidos parecem estar jogando o jogo dos sete erros: semelhantes à distância, distintos nos detalhes. Como se estivéssemos assistindo a duas adaptações da mesma série policial.
Pelo alcance e pelo estrago que podem causar nas elites locais, os esquemas comandados por Jeffrey Epstein e Daniel Vorcaro são irmãos gêmeos de pais diferentes. Ambos impressionam não apenas pela projeção das pessoas envolvidas, pelos entraves às investigações e pela extensão das duas redes criminosas, mas pelo que revelam sobre o tipo de sociedade onde cada um dos dois empresários cresceu, prosperou e formou seus valores. Epstein e Vorcaro não são espécies exóticas em seus habitats. São plantas nativas.
A rede de pedofilia montada por Epstein e a pirâmide de crimes financeiros erguida por Vorcaro dependiam de um intricado sistema de manutenção. No caso estadunidense, tudo girava em torno da troca de favores. Para alguns, o favor era sexo com menores, para outros era o convívio com bilionários, políticos importantes ou mesmo intelectuais e artistas. Epstein cultivava relações em todos os círculos, funcionando como uma espécie de maestro que conectava cada rato com sua fatia de queijo. Havia os tarados por dinheiro, os tarados por poder, os tarados por prestígio e até os tarados por sexo proibido por lei – e pelo menos um dos seus amigos mais íntimos exigia o pacote completo. Epstein garantia que seus clientes saíssem satisfeitos, e era gratificado pelos serviços prestados.
Apesar dos nomes graúdos da política que estão implicados no escândalo, seu negócio prosperava por si próprio, sem a necessidade do envolvimento de agentes públicos – pelo menos em grande escala. A lei não escrita de que os muito ricos podem tudo (inclusive tratar pessoas como mercadoria) era suficiente para manter a aparência de normalidade.
No caso de Vorcaro, também havia festinhas, sexo e troca de favores, mas nada disso bastaria se o ex-banqueiro não tivesse montado um esquema clássico de corrupção, com suborno a agentes públicos e a terceirização dos prejuízos para os cofres da União. Ou seja, se o Caso Master não fosse apenas a nova encarnação do bom e velho patrimonialismo brasileiro – sistema de dominação política que trata bens e cargos do Estado como extensão do patrimônio privado.
Por mais que elogie a mão invisível do mercado e a liberdade para empreender, é com o dinheiro público e a capacidade de manipular as instituições que criam, aplicam e fiscalizam as leis que o empresário corrupto brasileiro conta para prosperar e ser feliz. Há pelo menos 400 anos.






