
Está em curso uma espécie de experimento social em grande escala: até que ponto um negócio pode ir adiante, sem obstáculos, quando a mercadoria que traz lucro para alguns gera prejuízos para a maioria?
Fiquei pensando nisso depois de assistir Por dentro da machosfera (Netflix), documentário que oferece uma pequena amostra de como operam os influenciadores da cultura Red Pill – movimento que defende estereótipos de gênero e prega o ódio contra as mulheres. Sim, o pensamento desses influenciadores é caótico, um coquetel extravagante de teorias conspiratórias, teologia da prosperidade e analfabetismo emocional. Sim, sua retórica é misógina, homofóbica, antissemita. Mas o que chama atenção, no final das contas, é que eles estão nessa – como poderiam estar em qualquer outra – por dinheiro. E como as plataformas que os hospedam premiam o radicalismo, a espiral de insanidade torna-se o seu modelo de negócio.
Seria apenas mais um nicho de malucos, entre tantos, não fosse o estrago que estão fazendo na cabeça de homens e meninos – e o fato de que o atual governo dos EUA age e pensa como eles. Nas últimas semanas, pelo menos dois autointitulados “machos alfa” foram parar no noticiário. Nick Adams, influenciador de direita conhecido pelos comentários misóginos e pela tara por bifes, ganhou um cargo no governo Trump para promover o turismo. (Boa sorte nessa.) No Brasil, alguns dias antes, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que se dizia “macho alfa provedor”, foi preso por prover a esposa com um tiro na cabeça.
Para uma mulher adulta, e talvez para boa parte dos homens também, é difícil imaginar que um sujeito com mais de 12 anos se apresente ao mundo, a sério, como “macho alfa”. Lembrando que esse conceito, importado da zoologia, refere-se originalmente a chimpanzés que, além de fortes, detêm notável habilidade política para se relacionar com outros machos e fêmeas. De outra forma, a macacada cortaria-lhe a alfa cabeça na primeira oportunidade.
Infelizmente, é com isso que estamos tendo que lidar. Daí a importância do projeto de combate à misoginia aprovado no Senado. Ao contrário das fake news que andam circulando por aí, o projeto não cria nenhuma punição nova para piadas machistas ou brigas de casal, mas complementa normas já existentes com o objetivo de coibir, de forma mais clara, manifestações de discriminação e incitação à violência contra mulheres. Dessas que continuam engordando contas bancárias na machosfera – enquanto o número de estupros e feminicídios dispara no mundo real.




