
Preparar os filhos para atravessar o estreito de Ormuz que separa a infância da vida adulta tornou-se uma preocupação em tempo integral para os pais. Não que em outras épocas tivesse sido fácil educar alguém para enfrentar um mundo que os mais velhos nem sempre entendem muito bem, mas a sensação dominante hoje é a de que estamos em um momento igualmente confuso para todas as gerações. Há adultos na sala, mas eles estão distraídos – ou não sabem como ajudar.
Pensei nisso assistindo ao depoimento da juíza Vanessa Cavalieri na CPI do Crime Organizado na semana passada. Para assombro da audiência, a juíza afirmou que episódios de abuso sexual entre estudantes de escolas tradicionais de classe média, como o que aconteceu no Rio de Janeiro há pouco menos de dois meses, estão longe de ser exceção na Vara da Infância e Juventude que ela comanda:
— Não é o primeiro, nem o décimo, nem o vigésimo caso de estupro coletivo entre adolescentes da mesma escola, de escolas tradicionais de classe média, que eu recebo na minha vara. E tem algo que me chama a atenção nesses casos. Esses meninos estão reproduzindo uma cena que eles viram num filme, num vídeo de sexo explícito pornográfico. Então há uma repetição de um comportamento de algo que eles não deveriam nem estar tendo acesso — relata.
Diante desses fatos, imagino o tipo de conversa que os pais precisam ter com as meninas. Para que elas se cuidem, fiquem ligadas, mas ao mesmo tempo não sejam levadas a desconfiar de todo mundo o tempo todo, porque aprender a estabelecer laços de confiança fora da família também é uma parte importante da adolescência. Mas talvez ainda mais complicadas sejam as conversas com os meninos. Não apenas porque eles nem sempre gostam de conversar, mas porque seus pais não sabem como enfrentar, ou sequer identificar, o tipo de influência externa que pode levar um garoto a acreditar que é OK estuprar uma colega. Era o caso, talvez, de Vitor Hugo de Oliveira Simonin, um dos acusados no caso do estupro coletivo, que se entregou à polícia usando uma camiseta com a frase "regret nothing" ("não se arrependa de nada"), popularizada pelo influencer Andrew Tate, conhecido por propagar discursos de ódio contra mulheres na Internet.
Ainda durante a CPI, a juíza Vanessa Cavalieri mencionou uma pesquisa de uma universidade inglesa que revela que a faixa etária com maior número de homens misóginos é a das gerações Z (nascidos entre 1995 e 2010) e Alfa (de 2010 a 2025). Ou seja, há mais jovens misóginos do que homens adultos ou idosos - o que não é dizer pouca coisa.
Publicado há mais de 60 anos, Laranja Mecânica nunca me pareceu um livro tão visionário.



