
O primeiro governo Trump não tinha nem uma semana quando um livro escrito quase sete décadas antes voltou a figurar na lista de best-sellers. 1984 (1949), de George Orwell, um romance sobre um futuro dominado pelo autoritarismo e pela hipervigilância, parecia refletir não apenas o acabrunhamento geral da nação, mas o império dos “fatos alternativos” (aquilo que nossos avós costumavam chamar carinhosamente de mentira) – expressão que naqueles dias ainda causava algum espanto.
Passados quase 10 anos, as distopias literárias continuam em alta. Além de 1984 (que teve um crescimento de vendas de cerca de 9.500% em 2017), voltaram à lista dos mais vendidos clássicos como O Conto da Aia (1985), de Margaret Atwood, Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, e Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury. Enquanto isso, na prateleira de não ficção, multiplicaram-se os títulos dedicados a temas como a crise da democracia e a nova harmonização facial do fascismo. Não há biblioteca que chegue para dar conta de tanto realismo mágico.
Existem pelo menos três adaptações de 1984 para o cinema. A primeira, de 1956, dirigida por Michael Anderson, ficou famosa por ter sido secretamente financiada pela CIA – Stalin, que havia morrido três anos antes, era o uber Big Brother, o que caía muito bem como contrapropaganda do regime soviético no auge da Guerra Fria. A segunda, uma superprodução dirigida por Michael Radford e planejada para chegar aos cinemas no ano de 1984, marcou minha adolescência – e instalou um pânico permanente de ratos na minha memória. A terceira, de 1985, não é bem uma adaptação do livro, mas uma livre recriação do universo orwelliano. Brazil: O Filme, de Terry Gilliam, tem Ary Barroso na trilha sonora e o nome de um país-tropical-abençoado-por-Deus usado como metáfora de um porvir utópico. Na imaginação de um dos personagens, o Brasil era literalmente o país do futuro.
O documentário Orwell: 2+2=5 (2025), que está chegando este mês aos cinemas brasileiros, também não é uma adaptação direta de um livro, mas talvez seja a abordagem mais visceral (e oportuna) das ideias do escritor. Raoul Peck, diretor do ótimo Eu não sou seu negro (2016), criou um mosaico de alta voltagem política costurando trechos do livro Por que escrevo, relato autobiográfico de Orwell, com cenas de filmes e passagens do noticiário recente. Em uma época em que os “fatos alternativos” são cada vez mais onipresentes, insistir que 2 + 2 é 4 nunca pareceu tão revolucionário – nem tão urgente.




