
As duas histórias são macabras, aconteceram na França e estão chegando agora às livrarias brasileiras. Jean-Claude Romand, 72 anos, matou a mulher, os filhos e os pais em 1993, quando a família estava a ponto de descobrir que ele havia mentido durante 18 anos sobre sua profissão (ou falta de). Dominique Pelicot, 73 anos, sedava a mulher com quem foi casado durante quase 50 anos e depois convidava homens desconhecidos para estuprá-la enquanto ela dormia – e achava que era feliz. Sim, os dois eram considerados pais de família exemplares.
O Adversário (2020), de Emmanuel Carrère, e Um Hino à Vida (2026), depoimento de Gisèle Pelicot à jornalista Judith Perrignon, têm muitos elementos em comum, mas partem de dois pontos de vista antagônicos. Inspirado no clássico A Sangue Frio, de Truman Capote, o excelente romance-reportagem de Carrère dá voz ao criminoso. No relato de Perrignon, que em alguns momentos lembra a autossociobiografia de Annie Ernaux, temos a versão de uma vítima.
Ninguém acharia estranho se essa avó de origem humilde e hábitos provincianos tivesse optado por um julgamento discreto, mas sua decisão de mostrar o rosto ajudou a expor os criminosos e deu visibilidade à conhecida estratégia de culpabilização das vítimas. Muitos dos 51 acusados negavam o estupro. “Não sou estuprador, mas se eu quisesse estuprar alguém não seria essa velha”, disse um dos réus, parafraseando um certo político brasileiro. Todos acabaram presos.
Tanto os crimes de Jean-Claude Romand quanto os de Dominique Pelicot convidam a especulações psiquiátricas. Romand sofria de uma mitomania aguda. Dominique era um caso clássico de personalidade dividida. Mas e os outros 51 estupradores? E as pessoas que não acreditavam na versão de Gisèle? E o advogado de defesa que fez piada com seu sofrimento? Quando tentamos entender por que homens matam e torturam suas companheiras não podemos achar que a resposta está na doença, no caso excepcional, no acidente de percurso. Crimes como esses nascem de uma cultura, passada adiante por pais e mães, que normaliza a ideia de que as mulheres pertencem aos seus homens.
Gisèle Pelicot, ao contrário de Florence Romand, sobreviveu para buscar justiça. Adotando o slogan usado pelas feministas francesas desde os anos 1970, “a vergonha precisa mudar de lado”, transformou sua história em um emblema na luta contra a misoginia. Mas o livro vai além. Com sensibilidade, e sem apelar para o melodrama ou a psicologia rasa, Gisèle conta como conseguiu voltar a amar e a acreditar no futuro – sem precisar abrir mão das poucas e boas memórias que conseguiu salvar do incêndio.


