
Não foi a primeira vez em que prestígio e conta bancária trocaram juras de amor eterno. O Washington Post era um brinquedo caro, mas cabia com folga no orçamento de um bilionário. Em 2013, quando Jeff Bezos comprou o jornal que investigou o Caso Watergate prometendo “uma nova era de ouro” para a redação, os US$ 250 milhões que tirou do bolso correspondiam a cerca de 1% do que ele tinha. Se fosse cometer uma loucurinha parecida em 2026 (Uma ilha? Uma nave espacial? Uma rua ladrilhada de brilhantes para o seu amor passar?), Bezos não precisaria desembolsar mais do que 0,1% de sua fortuna, avaliada hoje em US$ 256 bilhões. Sim, o dono da Amazon ficou dez vezes mais rico nos últimos 13 anos – mesmo com um divórcio esvaziando um pouco o cofrinho em 2019. O Washington Post não teve a mesma sorte.
Anunciada na semana passada, a demissão de cerca de 30% da redação do jornal não chegou a surpreender quem vinha acompanhando a situação financeira da empresa menos lucrativa de Jeff Bezos. Depois de alguns anos de otimismo, com investimentos em tecnologia e novos assinantes batendo à porta, o jornal voltou a dar prejuízo em 2022. E então foi ladeira abaixo. Em 2024, quando o Washington Post decidiu, a 11 dias da eleição, não declarar apoio a nenhuma candidatura presidencial, rompendo assim uma tradição de 36 anos, lá se foram 250 mil assinaturas – cerca de 10% de sua carteira. “Faltou liderança, gestão, visão de negócio, imaginação, coragem”, acusou a repórter Ashley Parker em artigo publicado na revista The Atlantic. “Só o jornalismo continuou forte.”
Publicações que fecham, encolhem ou mudam seu projeto editorial para tentar sobreviver não são novidade em um país que perde, em média, dois veículos por semana. Da Gazeta de Arapiraca ao The New York Times, todos os jornais estão lutando para continuar relevantes em um ambiente hostil ao jornalismo profissional – aquele que paga jornalistas de verdade para correrem atrás da informação. O encolhimento do Post é especialmente desanimador não apenas pelo passado grandioso do jornal, mas porque escancara o desinteresse de um dos homens mais ricos do mundo em continuar investindo em jornalismo. Mudaram as circunstâncias ou mudou o homem que acaba de bancar um filme sobre o excitante dia a dia de Melania Trump?
“A democracia morre na escuridão” , diz o bonito slogan que Bezos colocou na capa do Washington Post em 2017. O dono da Amazon pode ter desistido do jornalismo, mas o jornalismo não vai desistir dele. A escuridão que se cuide.

