
Uma reportagem do New York Times comprovou o que até as molduras douradas da Casa Branca já haviam percebido: Donald Trump nunca falou tanto. Em relação ao primeiro mandato, seus discursos ficaram mais longos (e confusos) e suas entrevistas mais frequentes. Foram pouco mais de 800 mil palavras em 2017, contra quase 2 milhões em 2025. Uma comentarista da New Yorker chegou a usar o termo “logorreia” para se referir ao desarranjo verbal do presidente.
Transformar o espaço público em um ambiente saturado de mentiras, discussões vazias e comentários que provocam indignação (e engajamento) é uma das táticas que Trump aprendeu com Steve Bannon, estrategista da extrema direita. Atacar sempre, negar tudo e nunca admitir uma derrota são os três mandamentos de Roy Cohn que o presidente adotou ainda na juventude (a relação de Trump com seu mentor foi retratada no filme O Aprendiz, de 2024). Acrescente-se a esse código de ética mefistofélico o narcisismo, que talvez seja inato, e está explicada a compulsão do presidente em alugar os ouvidos do mundo – soando ora como menino mimado, ora como alguém que perdeu o juízo e o senso do ridículo.
Mesmo falando sem parar – ou exatamente porque fala sem parar – Trump é esquivo e escorregadio. Não é o caso de Stephen Miller. Pode-se dizer tudo sobre o homem de confiança do presidente, menos que ele esconde o jogo. Em uma entrevista à CNN no começo do mês, Miller resumiu com clareza admirável a cosmovisão do chefe: “Vivemos em um mundo onde se pode falar o quanto quiser sobre formalidades internacionais e tudo mais, mas o mundo é governado pela força e pelo poder. Estas são as leis de ferro do mundo. Somos uma superpotência. E sob a presidência de Trump, vamos nos comportar como tal”.
Palavras são como armas químicas. Lançadas no ar, têm efeito cumulativo. Vamos nos sentindo cada vez mais abatidos – e não apenas por seu valor de face, mas pela forma como são ditas e pela visão de mundo que expressam. Se ninguém responde à altura, as palavras vão ficando mais desabusadas, avançando no terreno daquilo que até pouco tempo era indizível. Nessa guerra travada pelo domínio da linguagem, a fala do premiê canadense Mark Carney em Davos foi tão inspiradora quanto um desembarque na Normandia. Por alguns minutos, tivemos um adulto na sala que não vive preso ao passado ou aos interesses de uma única tribo. Por alguns minutos, voltamos a acreditar que a lei do mais forte não é a única que existe – muito menos a mais inteligente ou digna de respeito.




