
Dostoiévski estava começando a escrever Os Irmãos Karamazov, em maio de 1878, quando seu filho caçula, Aliocha, de apenas três anos, morreu em decorrência da epilepsia. As marcas desse drama pessoal atravessaram seu último romance de diferentes formas, a começar pela mais óbvia, o nome do personagem em torno do qual orbitam todos os outros, Aliocha Karamazov.
O caçula da família é quase perfeito demais. Em meio a paixões dilacerantes, crimes terríveis e dúvidas morais sem solução, Aliocha mantém-se inabalável em seus princípios. Enquanto os irmãos mais velhos são demasiadamente humanos e falhos (Dimitri conquista o leitor pela personalidade exuberante, Ivan pela racionalidade), o mais jovem encarna a pureza, a capacidade de escutar, o amor incondicional. É como se Dostoiévski tivesse construído o romance como uma imensa catedral onde a memória de Aliocha ficaria guardada para sempre — iluminada pelo olhar amoroso do pai.
Essa história é narrada em todas as boas biografias de Dostoiévski. Não é o caso de um luto muito parecido, vivido quase 300 anos antes por um escritor não menos adorado. Tudo que se conhece sobre a vida pessoal de Shakespeare são informações esparsas e nem sempre confiáveis. Sabemos que teve um filho chamado Hamnet e que o menino morreu aos 11 anos, em 1596. Também sabemos que a peça que marcou o início de sua fase mais produtiva, Hamlet, estreou no Globe Theatre entre 1599 e 1601. E que Hamnet e Hamlet eram nomes que se confundiam naquela época.
A partir desse fiapo de dados factuais, a escritora irlandesa Maggie O’Farrell escreveu um romance, Hamnet (2020), imaginando como o luto pode ter influenciado Shakespeare na hora de escrever sua obra-prima. O livro deu origem a um filme em que a personagem principal não é Shakespeare (Paul Mescal), mas sua mulher, Agnes (Jessie Buckley, desde já minha candidata a todos os prêmios da temporada). É o olhar dela, na plateia do teatro, que traduz a experiência transformadora de ser arrebatado por uma obra de arte.
Como todas as peças que se tornam clássicas, Hamlet permite que cada época recrie o texto original a sua imagem e semelhança. Hamnet oferece uma interpretação muito particular da história, destacando trechos que nos levam a manter o luto em primeiro plano — não o do filho que vinga a morte do pai, mas o do pai que purga a perda do filho. Ninguém até hoje explicou melhor essa mágica do que Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”.




