
Para quem era criança no comecinho dos anos 1970, Chico City era um lugar tão real quanto qualquer outro. Tinha prefeito (Walfrido Canavieira), locutor de rádio (Roberval Taylor), Preto Velho (Velho Zuza), coronel mentiroso (Pantaleão), malandro tentando se dar bem (Azambuja) e uma galeria de tipos memoráveis, todos tão diferentes entre si, que era difícil para uma menina de cinco anos aceitar que eles eram a mesma pessoa. (Se existisse Inteligência Artificial naquela época, essa talvez fosse uma boa hipótese a considerar.)
Os cinco episódios da série Chico Anysio: um homem à procura de um personagem, que estreou em setembro na Globoplay, nos levam de volta aos tempos em que Chico City era uma metrópole sintonizada por milhões de brasileiros todas as semanas. Com roteiro e direção de Bruno Mazzeo, um dos oito filhos do comediante, a série revisita os altos e baixos de uma carreira que se estendeu por mais de cinco décadas e 209 personagens.
Filhos nem sempre são os melhores biógrafos do pai, mas Bruno Mazzeo conseguiu homenagear o talento de Chico Anysio sem evitar os temas difíceis (o casamento com Zélia Cardoso de Mello, a dificuldade de manter relacionamentos, os problemas com dinheiro). O resultado é uma série que merece ser vista não apenas como tributo a um ídolo, mas como documento histórico.
Relembrar a carreira de Chico Anysio é contar um pouco da história do humor no rádio e na televisão no Brasil. No começo dos anos 1960, quando técnicos e artistas estavam inventando um jeito de se adaptar ao novo veículo, Chico Anysio era o talento que estava despontando. Seu Chico Anysio Show, que estreou na TV Rio em 1960, foi o primeiro programa humorístico da televisão brasileira a usar o videotape, permitindo que o comediante contracenasse consigo mesmo. Foi um estouro.
O resto da história é conhecido. Chico Anysio tornou-se um dos comediantes mais populares do país, dividindo o trono com Jô Soares. Os dois tiveram trajetórias paralelas e muito parecidas, com uma diferença importante no desenlace de suas bem-sucedidas carreiras. No final dos anos 1980, quando uma nova geração de humoristas chegava à Globo, Jô reinventou-se como entrevistador e escritor. Chico Anysio, por sua vez, dobrou a aposta: com A Escola do Professor Raimundo, não apenas deu emprego a comediantes da velha guarda como tentou provar que ainda havia público para o humor à moda antiga. Funcionou por algum tempo, mas quando o programa foi cancelado, em 2001, Chico não conseguiu se recuperar. Morreu em 2012, aos 80 anos, achando que a vida havia perdido a graça.

