
Imaginem o Jornal Nacional sendo proibido de chamar uma tentativa de golpe de tentativa de golpe. Imaginem o Guedinho, da GloboNews, sendo despedido porque fez piada com a falta de coerência de uma determinada facção política. Imaginem o Roda Viva sendo tirado do ar porque parte dos convidados é de oposição. Imaginem Marcelo Adnet, Fábio Porchat e Gregório Duvivier tendo que medir as palavras para poder continuar trabalhando. Imaginem um presidente da República processando a Folha de S. Paulo, o Globo, o Estadão, a Zero Hora e qualquer outro veículo que ousar investigar seu passado ou questionar suas decisões. Imaginem o medo de represálias neutralizando empresários, anunciantes, jornalistas, entrevistados.
Esse cenário distópico, sinto informar, pode ser o nosso futuro se a extrema direita voltar ao poder em 2026. Pelo menos essa é a mensagem que o segundo governo Trump está enviando ao mundo: o segundo talho é o que corta mais fundo.
Se o clima de estado de sítio contra a grande mídia parece improvável no Brasil de 2025, mesmo com nossa escassa tradição democrática e notórias fragilidades institucionais, imaginem nos Estados Unidos de 10 anos atrás. Nem o mais enlouquecido profeta do caos teria sido capaz de prever episódios como 1) o anúncio do cancelamento da próxima temporada do programa Late Show, com Stephen Colbert, 2) o processo bilionário contra o jornal The New York Times, 3) a ameaça de cassação de concessões de empresas que empregam comunicadores contrários a Trump e 4) a suspensão repentina do programa Jimmy Kimmel Live!. Esses são apenas os casos mais recentes de tentativas de censura que aconteceram não numa ditadura do Fimdomundistão, mas no país que fixou o direito à liberdade de expressão já na primeira emenda de sua Constituição.
Depois dos escritórios de advocacia e das universidades, parece ter chegado a hora de a grande mídia enfrentar sanções e ameaças em série. Não chega a ser surpreendente. A intimidação de jornalistas, muitas vezes ao vivo, em entrevistas coletivas, já fazia parte do modus operandi de Trump e Bolsonaro em seus primeiros governos. A investida contra grandes veículos que se vê agora, porém, é muito mais grave e tem um alcance muito maior. Ainda é difícil prever até onde tudo isso pode ir antes que haja uma reação firme da sociedade civil. Uma coisa é certa: para muita gente (inclusive os donos das big techs que apoiam Trump) deve ficar bem mais difícil levantar a bandeira da defesa da liberdade de expressão plena e absoluta sem corar um pouquinho de vergonha.






