
Luiz “com z” Fernando Verissimo era o gêmeo sem graça do Luis “com s” Fernando Verissimo. O Luis, casado com a Lúcia, pai da Fernanda, da Mariana e do Pedro, avô da Lucinda e do Davi, era elegantíssimo na vida como nos textos, no Beira-rio como na Rive Gauche. Do Luiz a única coisa que se sabe, com certeza, é que odeia o Big Brother e costuma abusar dos clichês. Pode ser que torça para o Grêmio, more em São Paulo e seu verdadeiro nome seja Adelaide. Tudo é possível. Ao contrário do Luis, lido e amado no Brasil inteiro, Luiz nunca deu entrevistas, nunca distribuiu autógrafos, nunca foi tema de escola de samba. Luis Fernando Verissimo era tudo que o Luiz Fernando Verissimo gostaria de ser.
Luis “com s” viajou muito e foi traduzido em dezenas de países. Do Luiz “com z” não se pode dizer que nunca tenha ultrapassado fronteiras. Em 2005, durante o Salão do Livro de Paris, o Luis “com s” recebeu uma coletânea de textos de escritores brasileiros traduzidos para o francês: Drummond, Lispector, Bandeira, Verissimo… O problema é que o texto que escolheram, Quase, não era dele, mas do outro. De volta ao Brasil, o cronista narrou o episódio aqui mesmo na Zero Hora: “Tenho sido elogiadíssimo pelo Quase. Pessoas me agradecem por ter escrito o Quase. Algumas dizem que o Quase mudou suas vidas. Uma turma de formandos me convidou para ser seu patrono e na última página do caro catálogo da formatura, como uma homenagem a mim, lá estava, inteiro, o Quase. Não tive coragem de desiludir a garotada”.
Textos apócrifos sempre existiram, a começar pela Bíblia. Não foi a Internet, portanto, que inventou o Luiz “com z”, os falsos Quintanas, as falsas Clarices e Marthas, os falsos Vinicius e Pessoas (e muito menos os Pessoas falsos inventados pelo Pessoa verdadeiro, estes sim legítimos), mas o botão “compartilhar” permitiu que os textos atribuídos a escritores célebres ganhassem a dimensão de fenômeno literário global. Uma biblioteca de Babel talvez ainda mais fantástica do que aquela inventada por Borges — o autor argentino que não escreveu Instantes (“Se eu pudesse viver novamente minha vida…”), texto atribuído a ele antes mesmo do Aleph, quer dizer, da Internet facilitar o serviço dos copistas.
É provável que a enganosa simplicidade de Luis Fernando Verissimo tenha feito dele um alvo perfeito para o roubo de assinatura, mas o seu estilo, na verdade, é muito mais difícil de imitar do que parece. Existe, sim, um jeito infalível de distinguir um Veríssimo de um Falsíssimo. Basta aplicar o filtro mágico da elegância, da sutileza e da graça. Se usar clichês ou palavrões, não tem erro: é o outro.




