
Não sei o que me faz escrever. Não sei quem murmura o assunto nos meus ouvidos. Todo dia é uma decisão. Eu me informo, eu leio as notícias, eu estudo os temas do momento, mas no fim escuto a minha intuição. Sou do sexto sentido. Amar é mediunidade: para mim, não há diferença.
Somos sensíveis para nos comunicar com os outros. Orquestro as palavras para despertar silêncios e corrigir omissões.
Algo me toca e preciso colocar no papel. O tempo não prevalece. Não há fronteiras entre os mortos e os vivos. A inspiração vem de um eco do inconsciente coletivo. Apenas deixo entrar o sussurro do vento. Abro as cortinas dos olhos.
Na quarta-feira (30), resolvi falar sobre o meu medo de marquises, que guardo desde a tragédia das Lojas Arapuã, na ladeira da Doutor Flores: a cobertura veio abaixo enquanto o personagem-símbolo da rede, Arapinho, distribuía balas e chocolates para os clientes que circulavam naquela tarde de 6 de outubro de 1988. Nove pessoas morreram soterradas, sendo duas crianças.
Jamais me esqueci. Eu me encontrava no centro. O acidente mudou as regras de segurança urbana em Porto Alegre.
O que me pôs a evocar, do nada, um fato de 38 anos atrás, sem nenhum gancho aparente com a atualidade?
Nas minhas redes sociais, escolhi uma canção de Zé Ramalho como trilha da chamada para a coluna. Entre tantas melodias, foi a que senti necessidade de publicar.
Mas nunca são só casualidades, existe uma sincronicidade secreta definindo nossas atitudes. Eu desconhecia os motivos que me levaram para a crônica e para a música até receber esta mensagem.
“Querido Carpinejar,
Foi com surpresa que recebi hoje, no grupo de WhatsApp da minha família, a tua coluna ‘Medo de marquises’.
Minha tia — que à época tinha apenas 28 anos — e minha prima, sua filha, de (é até difícil dizer) apenas 4 anos, estavam lá. Minha tia teria ido mostrar o Arapinho para minha prima.
Eu era muito pequena quando tudo aconteceu. A única lembrança que tenho é de meu pai chorando copiosamente ao telefone, no momento em que recebeu a notícia. Eu não entendi o que havia se passado. Não me explicaram, o que poderia até ser compreensível: uma tentativa de poupar uma criança de algo que lhe fugiria ao entendimento.
Ocorre que os anos se passaram e muito pouco eu ouvia falar sobre isso. O assombro diante dessa dor inominável acabou por gerar um silenciamento coletivo em minha família. Até mesmo meu pai, que era fortemente ligado a ela, evitava o assunto. Entendo que foi um movimento autoprotetivo da parte de todos, porém a consequência foi um apagamento da memória delas.
Recentemente, no caminho para o trabalho, tocou ‘Avôhai’, do Zé Ramalho, enquanto eu via o sol nascer. Aquilo foi um soco no meu estômago. Lembrei de minha mãe contar que minha tia adorava essa música e que tinha colocado o nome do meu primo em homenagem à música (Juan Avohai). Juan morreu no ano anterior, em 87 (sim, ela havia perdido o filho no ano anterior).
Uma espécie de revolta me tomou: como uma família pôde ser dizimada assim? Minha tia era tão linda, tão única…
A partir daí, algo passou a clamar dentro de mim: era a necessidade de senti-los, de sabê-los. Minha irmã uniu-se a mim e, desde então, temos tentado trazer de volta à tona a memória deles.
E foi em meio a isso que veio a tua coluna, como uma confirmação, uma sincronicidade, um sopro sobre a poeira do apagamento. E veio com a voz de Zé Ramalho também. Ele, que cantou ‘Avôhai’.
Obrigada por isso. Procurarei, da forma que eu puder, honrá-los, porque sempre é tempo.
Carinhosamente,
Fernanda.”



