
Não havia maior pânico do que quando um dos pais aparecia no meio da aula.
Pai e mãe não iam à escola sem motivo, ainda mais fora do horário de entrada ou de saída.
Bastava enxergar um deles conversando baixinho com a professora, na porta da sala, para o coração disparar.
Alguma fatalidade havia acontecido. Algum falecimento. Algum acidente. Alguma internação. Algum fato grave demais para esperar os sinos do fim do período. Para respeitar o relógio.
Somente uma exceção da dor para nos tirar da classe.
Você procurava decifrar o rosto de longe. Se estava sério, se tinha chorado, se evitava encará-lo. Você tentava descobrir, pela movimentação nos corredores, quem havia partido.
E então a professora chamava o nome do aluno e pedia para ele reunir o seu material escolar:
— Pegue as suas coisas. Você vai embora mais cedo.
A intuição latejava a ponto de explodir as têmporas. Não se suportava a verdade.
O silêncio dominava a turma, que não dava um pio, sem a coragem de perguntar a razão.
O estudante convocado só obedecia. Levantava-se com sua mochila e ia a passos lentos, prestes a saber de algo que mudaria sua vida.
Foi assim quando minha vó morreu. Eu estava na primeira série. Recebi a notícia na secretaria, com a consolação da diretora e a presença de minha mãe em prantos.
— Meus sentimentos!
Desde lá, eu vejo que nada melhor do que os “meus sentimentos” para traduzir o luto. Com a sucessão de velórios e enterros da maturidade, talvez tenha me acostumado com a expressão, mas não há outra que sintetize o nosso desamparo diante da finitude. Porque não existe linguagem possível. Qualquer um desconhece o que balbuciar. Você consegue usar o abraço, ficar por perto, porém não tem como confortar. É devastador para aquele que sofre o baque de uma ausência repentina.
A morte sequer poupa o ensino fundamental. A cena mais dura, aguda e cruel que eu testemunhei, nas interrupções de conteúdo para retirar um colega, endereçou-se a Ricardo, na quinta série.
Não veio nenhum responsável direto. Ninguém da sua família. O que aumentou o suspense.
Naquela manhã, seus pais haviam se acidentado de moto em curva na Protásio Alves, em frente ao restaurante Barranco, e ambos não resistiram aos ferimentos.
Ele nunca mais riu. Ele nunca falou sobre o assunto. Ele nunca mais desceu para o recreio. Ele trocou de instituição um mês depois. Ele sumiu no mapa do pesar.
Lembro-me de seu olhar perdido ao escutar o próprio nome:
— Eu? Eu? Tem certeza?
Suas palavras já criticavam o destino, como a questionar: “Por que eu? Por que logo comigo? O que fiz para merecer a tragédia?”.
Invejávamos quem ganhava atestado médico, quem tinha uma folga das provas e dos temas, das notas e das lições repassadas da lousa para os cadernos, menos nesses momentos que nos arrancavam da sanidade da malandragem.
Ricardo se tornou órfão aos dez anos.
A infância poderia acabar antes do sinal.



