
Não existe mais o derrame de santinhos cobrindo as calçadas, de propagandas em árvores, jardins, muros, cercas e tapumes, de telemarketing eleitoral, de showmícios. Diminuiu — e muito — a poluição sonora e visual nas cidades na véspera do pleito.
Mas há algo que eu ainda acho absolutamente desnecessário e perigoso: os windbanners com o rosto dos candidatos, de 2 a 5 metros de altura, posicionados estrategicamente em canteiros, rótulas, parques e praças.
Ondulantes com o vento, próximos da calçada, atrapalham o campo de visão dos pedestres na hora de atravessar as avenidas. Não se enxerga coisa alguma pela frente. É uma armadilha para acidentes e atropelamentos.
No nosso clima invernoso, com reveses e chuvas intempestivas, os materiais têm voado, têm sido arrastados para o meio da rua, têm sido rasgados como alvo de depredação dos políticos rivais.
São pandorgas imensas, colocando em risco o nosso trânsito. Não há sentido para conversão de votos. Eu demoro a crer que, em tempos tão cibernéticos, alguém vai se decidir por um número na urna, em 4 de outubro, a partir daquela imagem. É ingenuidade supor que a aparência de Photoshop resultará em engajamento efetivo.
Não bastam as redes sociais, os debates e o horário gratuito na televisão e no rádio?
Por que não adotamos uma campanha limpa e consciente, mitigando os danos ambientais e públicos?
São centenas de bandeiras sem base adequada para resistir ao balanço do nosso minuano — os partidos se esquecem de encher a base plástica com água ou areia, e os tecidos pesados acabam lançados ao chão, dificultando o deslocamento das pessoas. Isso quando não se esquecem de recolher as bases, que permanecem no escuro sem que ninguém perceba o empecilho engatilhando tombos.
Embora fiquem expostas somente das 6h às 22h, as propagandas têm a capacidade de obstruir a sinalização (como placas) ou guias de acessibilidade para cadeirantes e deficientes visuais.
Você precisa se desviar de obstáculos enquanto caminha, principalmente em vias mais movimentadas nos horários de pico.
Em Porto Alegre, seus maiores polos são em entroncamentos na Rótula das Cuias e na do Gasômetro, na Ipiranga, Assis Brasil e Terceira Perimetral, na Redenção, Parcão e Encol. Feitas para o alcance dos motoristas, as peças prejudicam a liberdade dos transeuntes.
Não trazem paz ou segurança, modificam o desenho urbano e estão sempre alinhadas umas ao lado das outras, com o mesmo candidato em sequência, criando uma perspectiva de total ocupação do espaço por uma única sigla. Quando provocam efeito visual de outdoor, entram na ilegalidade, conforme Art. 26, § 1º, da Resolução TSE n. 23.610/2019:
“A utilização de engenhos ou de equipamentos publicitários ou ainda de conjunto de peças de propaganda, justapostas ou não, que se assemelham ou causem efeito visual de outdoor sujeita a pessoa infratora à multa prevista neste artigo”.
Por mais que você proteste no Pardal Eleitoral, nada muda. Não testemunho efeitos de fiscalização.
Quando os windbanners foram idealizados na teoria, não se pensou no quanto seriam perniciosos na prática. Roubam o horizonte de pais andando com as suas crianças para as escolas, familiares com os seus pets, multidão esperando o ônibus.
Postos em cruzamentos, rotatórias, esquinas ou faixas de pedestres, estabelecem barreiras visuais recorrentes.
Sem contar que são um tormento para ciclistas, que, por conduzirem veículos menores, ficam reféns das caramuças das estruturas, vulneráveis a colisões graves.
Sequer beneficiam o quesito ecológico. A produção em massa do recurso e o uso efêmero geram uma quantidade ostensiva de lixo plástico e de poliéster. O descarte incorreto sobrecarrega aterros, entupindo bocas de lobo e poluindo os rios nas cheias.
Tudo o que os nossos esgotos mentais e reais não conseguem suportar.
Já podemos recitar uma versão moderna do clássico de Drummond:
“No meio do caminho tinha um windbanner
Tinha um windbanner no meio do caminho
Tinha um windbanner
No meio do caminho tinha um windbanner.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha um windbanner.
Tinha um windbanner no meio do caminho
No meio do caminho tinha um windbanner”.



