
Mais do que um capricho ou uma política de boa vizinhança, escolher um padrinho e uma madrinha para o filho significa um conforto emocional.
Agem como tutores, aliados, protetores, influências positivas. Os pais desejam que permaneçam por perto caso um dia faltem.
É saber que existem pessoas que torcem por você, celebram suas conquistas e aparecem quando mais precisa.
Os dindos são convocados para a tarefa de ser aqueles que inspiram admiração, com valores importantes para passar adiante.
Não é somente dar um presente, é se fazer presente com conselhos e histórias. Corresponde à missão de ampliar o círculo de referências.
A homenagem pode ser para um melhor amigo ou amiga, pode ser para alguém da própria família. Não há regra na indicação, exceto a de festejar a proximidade e a confiança.
Meus padrinhos foram meus avôs.
O vô me buscava para um passeio sem meus irmãos. Eu me sentia prestigiado, com tratamento exclusivo.
Vinha em seu Corcel II vermelho, espaçoso, com estofado de couro e câmbio no volante. O carro já parecia uma sala de estar. Ele deixava que eu me sentasse na frente e me perguntava como eu ia na escola, se tinha amizades, se havia uma menina de quem eu gostasse, questões que nunca abriria em casa.
Íamos à Banca 40 do Mercado Público para comer salada de fruta com sorvete, nosso programa de afilhado.
Estranhava que ele me beijava no rosto, não apenas me cumprimentava com um aperto de mão. Era um homem que beijava, diferentemente da masculinidade fóbica da época. Minhas bochechas recebiam de empréstimo sua loção pós-barba.
Ficávamos duas horas juntos mensalmente, o suficiente para eu conseguir organizar as minhas vivências, procurar as palavras, entender quem eu me tornava dentro da minha infância.
Sady Nejar, pai de meu pai, foi meu fornecedor de biscoito Bis e de pares de meias. Ele me dizia:
— Mantenha os pés aquecidos e será feliz. Coma chocolate e não pensará bobagem.
Somos carentes de instruções e de conversas no período de formação.
Dispor da atenção de um adulto representava ser levado a sério. Eu não lamentava não ganhar brinquedos, porque ele me alcançava uma filosofia de vida. Eu ria da insistência dos agrados, da ausência de surpresa, da sua previsibilidade.
Ainda que perdesse tempo embrulhando, ele me entregava as mesmas lembranças.
Ele me transmitia segurança. No meio do caos do cotidiano, cheio de desatinos e desvios de rota, algo não mudava, como uma religião: a sua visita de Rei Mago, com as suas ofertas de sempre.
Não duvido que fosse de propósito, como uma maneira de jamais esquecê-lo.
Hoje, se eu vejo Bis, lembro-me de meu avô.
Hoje, ao pôr as meias, lembro-me de meu avô.
Repetição é intimidade. Ele resistiu gigante na memória a partir de duas miudezas.
A maior saudade mora nos detalhes.


