
Há certos hábitos que abandonamos. Alguns foram prescritos pela segurança, outros terminaram esquecidos na década de 80 e caducaram com a tecnologia.
Não houve despedida nem anúncio de sua extinção. Simplesmente paramos de repeti-los. Não percebemos qual seria sua última vez. O adeus aconteceu com um suspiro que se confundiu com o vento, desfalcado de epicédio e honras fúnebres.
Não nos preparamos para mudar, fomos arrastados pela necessidade de nos adaptar.
Quem tem mais de 40 anos vai recordar exatamente cada cena, com um misto de arrepio e surpresa. Aquilo que integrava a nossa rotina pode soar absurdo.
A sobrevivência nos envelhece, e rejuvenesce a saudade.
Virar o colchão: o ritual doméstico periódico de encostá-lo na parede ao longo do dia. Ainda mais com crianças em casa, que batizavam os lençóis depois de pesadelos.
Bater o tapete: numa operação de guerra, era pendurado no muro ou no varal e recebia golpes de vassoura. O som estrepitante lembrava alguém apanhando.
Varrer a calçada: muito além da limpeza, consistia numa maneira de aparecer publicamente e começar conversa com aqueles que passavam na frente da residência. O bom-dia dava corda para perguntas. Recolhíamos as folhas em montinhos na esquina e as queimávamos. A fumaça corria os céus do bairro, acompanhando a manada das nuvens das churrasqueiras e das chaminés.
Molhar o passeio público no fim da tarde: com direito a espuma e pulos dos pedestres. O cheiro da água no cimento funcionava como um relógio do pôr do sol.
Emprestar açúcar, café, ovo e farinha ao vizinho: a falta de um ingrediente fortalecia a convivência. Recorria-se à porta ao lado sem cerimônia. Ninguém mais faz isso. O ato será até malvisto, gerando suspeita.
Ter caderneta de telefones perto do aparelho: o item, fundamental para a ronda, ficava na mesinha do corredor. Continha os números do trabalho dos pais, dos amigos e dos serviços essenciais.
Chamar o carteiro pelo nome: ele não entregava apenas correspondência, mas também conhecia nossas esperanças.
Mandar cartão-postal durante viagem: constituía o repertório antigo do amor e da amizade, com a imagem de um ponto turístico e um pequeno retângulo para frases no verso. As breves linhas disputavam espaço com o endereço do destinatário e com o selo.
Encapar livros e cadernos: um cuidado obrigatório na véspera do início das aulas. Vivíamos forrando o material escolar com celofane, para que não estragasse em contato com a merenda na mochila.
Decorar mesinhas, armários e eletrodomésticos com papel contact: existia sempre um rolo na gaveta, junto do papel-alumínio e do plástico filme. Cobríamos as superfícies da cozinha. Reinava um capricho no uso da régua para não produzir bolhas.
Apontar lápis com faca: aprofundávamos a arte de descascar frutas. Todos possuíam um canivete de estimação. Andávamos armados para a escrita.
Parar no acostamento para piquenique: viajar não se resumia a chegar. Estacionávamos no belvedere para admirar a paisagem e comer lanchinho. No pit-stop, aproveitávamos para “olhar o passarinho” com a família reunida no capô do carro.
Escrever atrás das fotografias: especificávamos lugar, data e pessoas. Desprovido de legenda, o documento se perdia de referências com o falecimento das testemunhas.
Mostrar álbum aos possíveis genros e noras: praticamente uma rede social artesanal, feita para dissuadir os pretendentes com flashbacks dos filhos pelados, tomando banho de mangueira.
Dormir atravessado no banco traseiro: com o veículo em movimento, sem cinto e com uma confiança hoje perigosa.
Assistir à novela no sofá: suportávamos os demorados comerciais, vendo o mesmo programa na única televisão da sala.
Guardar comida para quem não voltou: o prato se mantinha servido na mesa, com um pano por cima para espantar as moscas. Não se mexia na refeição sagrada enquanto o familiar estivesse ausente. Uma forma de dizer “esperaremos por você o tempo que for”.





