
Alguém nos ensina a falar, a andar, a comer, a ler e a escrever. Quando nascemos, não sabemos nada. Surgimos no mundo indefesos e vulneráveis.
A existência passa pela gratidão. Ou você é grato, ou terminará arrependido e recalcado.
Você jamais se pôs de pé sozinho.
Quem me fez caminhar foi meu avô Leônida Carpi, durante um veraneio em sua casa, em Guaporé (RS). Eu somente engatinhava, enxovalhando o macacão de bebê pelas tábuas enceradas do piso.
Conservo flashbacks esfumaçados e pouco nítidos desse tempo.
Ele não usou os corredores largos, próprios das residências do interior, mas o estrado da sua cama de madeira. Servia para fortalecer os joelhos.
Brincávamos de morto-vivo. Eu descia e subia ao som do seu sotaque italiano. Era o meu fisioterapeuta. Apresentava um bigode ralo, grisalho, como se fosse uma sobrancelha da boca. Quando sussurrava, os seus lábios pareciam um olho cúmplice piscando para mim.
Logo as minhas pernas ficariam firmes com o vaivém das manhãs, logo eu estaria me equilibrando sem o apoio de ninguém.
A cada despertar, ele repetia o ritual, incentivando-me a buscar o meu cueiro. Íamos ao seu quarto e iniciávamos mais uma sessão de treino secreto, longe da plateia dos pais e dos irmãos.
Não sofríamos com as expectativas da família. Tudo ocorria reservadamente, com a porta fechada, com o canto do galo ao fundo da claridade recém-inaugurada.
Ele não gritava: "Vem!". Não bradava: "Você consegue!". Apenas me esperava, respeitando o meu ritmo e a minha fragilidade.
Quando aprendi a andar, eu me desloquei do meu colchonete no chão e fui em direção ao seu quarto, devagar, com o queixo erguido, assumindo um outro universo da simetria e dos ângulos, como se eu estivesse montando o cavalo do meu corpo, após meses assistindo à reação dos demais de modo rastejante.
Contam-me que eu chorei copiosamente, agarrado ao estrado de sua cama. Não queria sair dali sem ver meu avô. Desejava mostrar o que tínhamos conquistado juntos. Minha intuição pedia reciprocidade. Mas os lençóis estavam arrumados, os travesseiros intocados, sem vestígios de seu perfume silvestre.
Leônida havia morrido naquele raiar do sol. O adeus me cobriu da sombra de sua ausência, das trevas do não lugar.
Nunca mais o apanhei atento com o jornal ou tossindo com uma xícara de café. Nunca mais tive chance de retribuir seu olhar de esteio, de corrimão. Nunca pude passear com ele de mãos dadas para comemorar a motricidade, pulando poças e fingindo ser um elevador.
Morto-vivo-morto…
Assim como ele me ensinou a levantar, também me ensinou a cair. Eu entendi o que é a saudade não entendendo o que aconteceu. A saudade é o engasgo, a respiração acelerada na imobilidade, o mistério do desaparecimento quando se acredita que um afeto estará disponível para sempre. É um andar incuravelmente solitário, com uma presença dentro de você.
Tratou-se do primeiro luto da minha vida. Essa perda desconcertante em que corri para os braços do meu avô e simplesmente não o encontrei mais. Restou-me encontrar o que ele significava para mim.



