
Meu pai mora no Rio. Colhi uma dica preciosa de um casal de amigos, Marcus Vinícius Freire e Claudia Liechavicius, para levá-lo a um almoço chique.
Decidi fazer uma surpresa. Saímos de táxi para o melhor restaurante português da cidade: Gajos D’Ouro, em Ipanema, como antecipação para a festa de Dia dos Pais no domingo. Busquei proporcionar uma lembrança inédita.
Combinei com ele sem mencionar o endereço. Queria lacrar. Ele é apaixonado por frutos do mar. Eu acreditava que seria a sua estreia naquelas mesas caras e inacessíveis.
Ao chegarmos, estranhei que a recepcionista o saudou:
— Bom dia, Nejar!
Parti do princípio de que ela o identificava de outro momento.
Mas o maître também o chamou pelo sobrenome, carinhosamente. Insisti em achar que não passava de uma coincidência.
Fui tão bem tratado, com efusão e prontidão, que me senti imediatamente VIP. A brigada permanecia solícita e atenta ao redor de nossa prosa. Pegava nossas palavras no ar.
Apareceu a gerente do estabelecimento para pedir uma selfie com ele. Até brinquei:
— Que mel, hein? Está famoso no Rio, paizinho?
Ele sorriu e se bastou com o franzir dos olhos, não tecendo nenhum comentário.
Procurei recuperar o controle da situação e orientei:
— Vamos olhar o cardápio, há muitas opções de pescados.
Caí das minhas fantasias quando o garçom perguntou:
— O de sempre, Nejar?
Eu me calei, constrangido. Não conhecia nem metade da história.
Meu pai concordou:
— Pode vir o linguado ao molho de uvas.
O golpe final foi quando o garçom questionou se ele desejava o avental.
“Ué, avental? Será que ele costuma usar um guardanapo na gola?” — raciocinei, tentando encontrar um nexo para a oferta, que soou extravagante.
De repente, o garçom trouxe um avental personalizado, com o nome de meu pai bordado e os símbolos do Grêmio, seu time, e do Flamengo, da torcida local.
Ele tinha um uniforme próprio. Os funcionários o consideravam uma instituição. Não era um freguês ocasional, mas um dos clientes mais antigos da casa, a qual abriga uma confraria nejariana, com admiradores e leitores de sua obra.
Quantas vezes ele já esteve ali?
Não sabe nada, o inocente!
É comum o filho determinar um presente pela sua experiência e esquecer que a figura paterna viveu de tudo antes mesmo do seu nascimento.
Eu me comportei de modo ingênuo, como se fosse fácil mostrar alguma novidade a quem atravessou quase nove décadas de aventuras. Meu orgulho jurou em vão que ainda conseguiria apresentá-lo a um prazer inexplorado.
Respeite a autoridade da idade. Você pensa que está indo, e seu pai está voltando.
Evidentemente, paguei a conta. Isso serviu de atenuante. Ao receber uma refeição de graça, ninguém nunca dirá que frequenta o lugar. É uma feliz amnésia.





