
Pedi Uber para ir a uma sessão de acupuntura. As costas são a primeira baixa depois dos 50 anos.
Mantenho meus endereços fixos, meus endereços costumeiros. Só clico em cima, não digito nada.
O motorista estacionou na frente do prédio, dei o código, ele confirmou a corrida.
O celular é uma babá de desastres: você vai mexendo nele, mandando mensagens, rolando a tela, emendando stories de conhecidos, e não acompanha o itinerário.
Após 15 minutos, estranhei que ainda não tinha chegado. Despertei, assustado, do transe hipnótico das redes sociais.
Espiei pela janela e percebi que me encontrava no caminho contrário ao meu ponto final, no lado oposto da cidade. Desejoso do Moinhos de Vento, eu me deslocava para o Menino Deus. Da Zona Norte almejada, partia para a Zona Sul.
Perguntei ao motorista:
— Tem certeza dessa rota?
Ele me respondeu:
— Estou seguindo o Waze.
Waze é outra babá das distrações.
Não podia ser por ali, não podia ser o trajeto mais fácil. Não podia ser fuga de engarrafamento. Eu decidi esclarecer:
— Estamos indo para o Espaço Agulhas Curativas?
Ele olhou, olhou e disse:
— Não, está marcado aqui “Pura Magia: Amarração Amorosa”.
Conferi o “para onde?”, e o registro coincidia mesmo com esse inusitado e insólito desembarque.
Entre nós, pairou um silêncio constrangedor. Já deduzia o que ele projetava a meu respeito: que eu estava na fossa, sofrendo por algum romance interrompido, desesperado por uma reconciliação, obcecado por alguém, apelando para os astros.
Veio uma vontade de explicar que o roteiro não fazia sentido, que eu era bem-casado, feliz e amado. Mas hesitei em me justificar e fui enfático para não perder mais tempo:
— Não é o meu destino!
Nunca ouvi falar do local. Não existia em meu histórico. Não guardava proximidade com meu rumo ou semelhança de nome com o lugar que queria. Não havia como acontecer. Aquele espaço privado dentro do aplicativo tampouco exibia anúncios e ofertas.
Não duvidava mais do poder da casa. Pelo jeito, interferia no Uber e colhia passageiros desprevenidos.
Isso que eu chamo de amarração, de atração sobrenatural de clientes.
Assim que fechei a porta do carro, consultei o recibo. O mapa mostrava um percurso longo, cheio de voltas e elipses, com uma guinada abrupta de direção, mas a minha mudança não constava.
Sequer é possível documentar a ocorrência. O mistério apenas aumenta: o trabalho espiritual de abdução, tão bem-feito, não deixou vestígios. Sumiram os indícios da veracidade do relato. Pareço até louco.
Vivemos cercados de rastros digitais com coleção de prints, coleta de provas, diálogos armazenados, dicas de senhas, e, quando precisamos que a tecnologia testemunhe a nosso favor, ela apaga a parte mais inacreditável da história.




