
Beatriz se mostrava contente de manhãzinha, tomando café, cantarolando, lendo jornal, antes de ir para a academia.
Ao comentar “Que dia feliz ao seu lado!”, ela se espreguiçou e colocou seus braços subitamente para trás no sofá. Não percebeu que o vaso de rosas, com o buquê que eu havia comprado na semana anterior, estava ali, numa pilha de livros em cima do baú.
Foi uma aguaceira em todas as direções. Obras de arte acabaram ensopadas.
Então me transformei em uma arara, uma fera, um bicho. Ralhei: “Porra!”. Nem pensei no que estava falando. Não vou mentir: alguns outros palavrões vieram junto.
Começamos uma operação de tentar diminuir o estrago secando uma por uma das encadernações. Um sem-número de paninhos e mãos em movimentos de dueto, de polvos enlaçados.
Estendemos o acervo no tapete, ligamos ventiladores e não tínhamos mais onde pisar. Ocupamos o piso com as mais diversas capas e brochuras.
Um simples vaso conseguiu encharcar dezenas de exemplares.
Aos poucos, eu me dei conta de como vinha sendo patético, de como era ridículo o meu escândalo.
Sou apegado a uma ordem mental, aos meus pertences. Mas não existe permanência. O importante é ler, não o objeto em si.
Ela não fez de propósito. Acontece. Não teve culpa. Tratou-se de um acaso, um acidente doméstico insignificante. Já ocorreu comigo: quantas vezes derrubei chimarrão sobre seu computador e seus cadernos? Não me lembro de nenhum chilique de Beatriz por isso.
Livros são livros, amor é amor. Cabe diferenciá-los nas horas de atrapalhação de viver.
Por mais que eu seja devoto aos meus 8 mil títulos, um leitor voraz, um colecionador de edições raras, precisava ter raciocinado em vez de me precipitar ao caos.
Livros vão sujar, molhar, hospedar traças, amarelar, receber manchas do tempo. Basta abandonar um marcador de página numa folha e haverá uma sombra eterna de sua imobilidade. Até uma leitura interrompida deixa cicatrizes.
A obsessão nos põe a esquecer que nada levamos daqui – chegamos sem nada e saímos sem nada. Nossa única bagagem é a memória dos afetos.
O que adiantava oferecer 36 rosas para a esposa se logo depois eu me irritaria com algo tão trivial?
As flores testavam a extensão do meu jardim.
Com certeza, Beatriz teria preferido as raízes de minha calma aos botões desabrochando.
Iria gostar mais de minha compreensão do que de minha declaração.
São os momentos privados, sem o arranjo exposto nas redes sociais, que determinam a confiança.
O romantismo não vale da boca para fora. Só dura secretamente, por meio dos gestos singelos da rotina.
Que paciência é essa que não se sustenta com incidentes, que é posta no chão facilmente?
Fiquei refletindo: tantos conterrâneos perderam suas casas, com tudo que estava dentro, na enchente que assolou o Rio Grande do Sul em 2024, e eu preocupado com respingos e poças em parte da biblioteca?
Resta-me pedir desculpas por sofrer desproporcionalmente, sem necessidade. Por sofrer indevidamente.
Não podemos brincar com a dor. Maturidade é jamais banalizá-la.


