
Há quem ame desengonçado, ame atrapalhado, ame silenciosamente, ame contido, ame extravagante, ame com meias palavras, ame com as palavras inteiras, soletradas.
Tudo é amor.
Não nos cabe julgar definitivamente nenhum afeto. Percebemos apenas as versões possíveis, do momento.
Não existe um jeito certo de amar. Você ama como consegue. Ama como é amado. Você só é capaz de dar o que recebe.
Emana toda uma simbologia dos acessórios paternos: o boné, a boina, a manta, o cinto, o suspensório, o sobretudo.
São objetos para nos proteger do frio e do sol, para nos prender ao mundo, para fincar nossas raízes no chão do cotidiano.
Vou contar o quanto a falta nos assalta de repente.
Eu estava dirigindo sob uma cerração forte, subindo a Serra. Fui buscar no porta-luvas algo para desembaçar o para-brisa. Eu não estava enxergando nada pela frente, um horizonte branco se condensava entre a estrada e as nuvens.
Localizei uma flanelinha laranja.
Você tinha uma flanelinha laranja no carro. Aquele paninho é você, pai. Você carregava no bolso para qualquer urgência: suor, graxa, poeira.
Desfraldava a sua bandeira miúda da paz, para limpar as mãos, vidros, superfícies.
Você usava de modo indiscriminado, não importando o contexto.
Você foi se deixando para mim aos poucos.
Você foi largando as suas pistas dentro de casa, dentro da minha vida, dentro dos hábitos, para que eu o encontrasse, como uma presença inesgotável mesmo na ausência.
Vivemos aos pedaços, e alguém vai colando um por um de nossos cacos, vasculhando os cantos, até fazer sentido, até fazer legado.
Você foi facilitando a saudade com os seus ritos.
A sua mania de ainda esquentar a água na chaleira. E deve ser na chaleira à moda antiga. Deve ser com o chiado. Semelhante ao som de sua respiração sôfrega de manhãzinha, de seu pulmão tossindo esperança.
Ah, como eu escuto esse chiado.
Ah, como eu procuro a flanela.
Ah, quando eu ponho uma boina, quando eu ponho um boné, eu penso em você.
E não tem como não pensar em você, pai.
Porque não é somente do lado de fora que eu me deparo com seus vestígios. É também no interior de meu caráter, onde nem preciso ir atrás.
Sabe o que as pessoas mais falam, pai?
Que a minha risada é igual à sua.
Se eu fosse chorar em público, as minhas lágrimas seriam iguais às suas.
Talvez a minha maneira de gritar por você seja igual à maneira como você gritava pelo seu pai.
Assim um filho grita pelo outro filho que há no pai, pois seremos sempre filhos, irmãos no medo, pelos corredores da memória, pelos ecos da eternidade, numa tapeçaria de chamados.
O que eu preservo dos seus gestos irei descobrir lentamente. Não há mais pressa.
Uma vez que nos sentimos desejados no parto da maturidade, os olhos nascem para as evidências.
Passei muito tempo fugindo para não me parecer com você. E, agora, o que eu mais quero é que todos digam que sou a sua cara.



