
Quando o telefone fixo reinava sem concorrência, quando a lista telefônica servia de guia, penávamos para contatar um parente em seu emprego.
Vivíamos reféns dos ramais, da burocracia da baldeação de setor a setor. A hierarquia aumentava a nossa ansiedade.
Os empregados estavam nas suas salas, com as suas linhas, e você dependia da boa vontade daquele que atendia.
Acredito que muitos jamais aprenderam a transferir para o ramal de seus vizinhos de profissão, e a ligação caía. E você precisava discar novamente, e não havia jeito de falar com quem você estava procurando.
A operação se mostrava mais aflitiva do que discutir com teleoperadora.
Como crianças, com a voz infantil e insegura, sofríamos com a pecha do trote. Se nos perguntavam “Quem deseja?”, ficávamos em silêncio. Não éramos alguém importante. Amargávamos as barreiras do pequeno poder monárquico.
Não cabia explicar o motivo e expor a intimidade familiar. Podia ser febre, acidente, eletrodoméstico estragado, fim do gás da cozinha, ou pagar algum entregador que se encontrava na porta de casa.
Se telefonávamos para o serviço da mãe ou do pai, e estávamos com pressa, sempre errávamos a escrivaninha. Havia um número geral e cada um se responsabilizava em localizar o paradeiro a partir de uma relação de nomes de todos que trabalhavam no prédio.
Poucos conseguiam.
Às vezes, você ia de galho em galho até que, extenuado com as interrupções do incansável vaivém, o outro perdia a paciência, decidia gritar e chamar o colega para perto, para que resolvesse ali mesmo, no telefone alheio.
Pior ainda quando você acertava o destino e recebia a notícia de que o fulano ou a sicrana não estava na mesa.
Aquilo equivalia a desaparecer no Triângulo das Bermudas corporativo. Ninguém sabia se estava no banheiro, no cafezinho, no almoxarifado, fumando ou em reunião.
O ambiente reverberava ecos. Escutava-se junto, na extensão, máquina de escrever, carimbo, ventilador, conversa paralela, gavetas batendo, rádio ao fundo.
O conselho “ligue depois” soava como ironia diante do nosso imenso esforço.
Decorávamos o número telefônico dos pais como um código sagrado para somente colocar em prática em casos de urgência. Mas o que seria uma urgência? Definíamos de acordo com a nossa experiência de mundo.
Arcávamos com o medo de parecer inconvenientes, com a vergonha de insistir, com o constrangimento de atrapalhar o expediente.
Se deixássemos um recado, corríamos o risco de ser vítimas da amnésia. O funcionário voltava e questionava:
— Quem era?
E o portador não se lembrava mais. Pois não tinha anotado.
Atualmente mandamos uma mensagem e cobramos resposta em segundos. Entramos em pânico inventando tragédias mentais com o vácuo de meia hora. Antes, uma ligação percorria fisicamente andares inteiros de um endereço.
Naquele tempo, ligar nunca era direto, exigia atravessar incontáveis paredes, divisórias e pessoas.





