
O Farol Santander apresenta exposição de brinquedos antigos a partir desta terça-feira (14), com entrada franca, em Porto Alegre.
“Uma Viagem ao Mundo dos Brinquedos” reúne mais de mil itens dos anos 40 aos 80, provenientes do acervo que pertence à pesquisadora Ana Caldatto.
É uma rara chance de reencontrar a infância. De atravessar o túnel do tempo da ingenuidade e da inocência. De mostrar para os filhos e netos o que mobilizava a sua fantasia em tenra idade.
Entre os principais atrativos estão a coleção Playmobil, os videogames pioneiros (como o Telejogo Philco e o Atari), o walkie-talkie e uma das primeiras bonecas Emília, inspirada na personagem do Sítio do Picapau Amarelo, confeccionada em feltro e vendida exclusivamente nas lojas Mesbla.
Conto os minutos para rever os soldadinhos de chumbo, que sobreviviam a quedas e resistiam ao contato com as chamas. Tomara que seja permitido segurá-los de novo. O peso moldou a palma da minha mão.
Eram miniaturas rígidas, forjadas em metal, geralmente pintadas artesanalmente com cores vivas. Exibiam uniformes impecáveis dos exércitos francês, inglês ou russo: casacas, botões dourados, dragonas, cinturões brancos cruzando o peito e botas pretas engraxadas. Na cabeça, usavam barretinas altas ou capacetes ornamentados com penachos.
Cada um permanecia congelado numa modalidade. Uns marchavam com o fuzil apoiado no ombro, outros apontavam a baioneta para a frente. Havia também aqueles que empunhavam bandeiras, tocavam tambores e empinavam a montaria. Seus rostos se destacavam pela austeridade, quase sempre com bigodes bem aparados e expressão impassível, como se ignorassem o medo.
Mantinham os pés sobre uma base metálica. Nunca dobravam os joelhos nem relaxavam a postura, prontos para uma batalha que jamais terminava.
Quantos conflitos travei com meus irmãos, em cima do sofá e da cama, esquecendo os afazeres e temas da escola?
É possível recordar o Forte Apache, da Gulliver.
Não se tratava de uma maquete, mas de um universo inteiro à parte, ao estilo dos filmes de faroeste americanos.
Toras de plástico marrom, afiadas na ponta, compunham a fortaleza. Nos quatro cantos erguiam-se guaritas, e um grande portão de duas folhas se abria para a cavalaria sair em disparada.
Lá dentro ficavam os soldados azul-marinho, com quepes e armas de fogo. Do lado de fora, os indígenas cavalgavam, munidos de arcos, flechas e lanças, preparados para encurralar os adversários.
Inúmeros apetrechos, como carroças, canhões, cactos e cercas, caracterizavam diferentes cenários.
Eu pegava emprestado o grito do Zorro para o seu cavalo:
“Alô, Silver!”.
Eu inventava os meus próprios duelos, sem roteiro prévio. Os ataques duravam dias. Um soldado caído ressurgia de pé; um pajé derrotado voltava ao confronto na rodada seguinte. Na minha guerra, todos ressuscitavam. Eu me posicionava contra a história hegemônica: queria que os indígenas ganhassem.
Ainda vou matar saudades de meu amigo de conversas imaginárias, Falcon, com seus olhos de águia: o combatente barbudo com cicatriz na bochecha, lançado pela Estrela.
A marca de luta destoava dos rostinhos perfeitamente diagramados.
Existiam versões de cabelo castanho, loiro e ruivo. Vestiam uniforme camuflado, roupa de mergulho, macacão de paraquedista, traje de explorador, equipamento de espionagem. Pilotavam jipe, helicóptero, motocicleta, bote. Vinham com acessórios que mudavam conforme sua missão. Suas caixinhas traziam coturnos, cantil, mochila, cordas, binóculo, rádio, faca, máscara, cilindro de oxigênio. Trocar de figurino ampliava a brincadeira e alternava os repertórios.
O herói encarnava um 007 feio que compensava a falta de beleza com a coragem — um dos primeiros bonecos para meninos, quando reinavam a Susie e a Barbie para meninas.
Até hoje acredito que o marido da Barbie não foi o Ken, mas o Falcon.




