
Não tive pena de Messi. Não conheço nenhum argentino que torça pelos brasileiros. Tampouco achava que existia algum brasileiro que estivesse do lado da Argentina, até descobrir que minha mãe se abalou com o tombo para a Fúria no domingo (19), na decisão da Copa do Mundo.
Primeiramente, pensei que Dona Maria estava sendo irônica por mensagens: “Chorei por Messi”. Não localizei emoji de risinhos depois.
Como tira-teima, telefonei para ela e notei que sua respiração se mostrava realmente embargada, confrangida.
Minha mãe não é fanática pelo esporte, passa longe de qualquer endeusamento. Não carrega a bandeira de um time, embora eu desconfie que seja gremista para agradar ao seu caçula.
Contudo, algo tocou no seu coração sacrossanto e abriu os seus chacras da compaixão. Ela se identificou com o canhoto veterano, fazendo a sua última dança pela Albiceleste aos 39 anos.
— Ficou louca, mãe?
Ela entrou num modo custoso de contestar:
— O que Messi deve ter sentido também senti no meu coração. A Espanha arrancou a taça, não o brio dele. Acredito que o futebol e seus atletas substituíram os gladiadores aplaudidos pelo sangue derramado. Apesar disso, Messi se manteve humano e sensível. Ele sabia rir e prantear diante dos leões do coliseu. Competições têm preço, pessoas têm valor. O ouro da taça não supera o Rio da Prata dos olhos de Messi.
O camisa 10 cumprimentou seus adversários pela conquista e se sentou em silêncio, no meio do campo. Tirou as chuteiras, as meias, voltou a ser um menino da várzea e engoliu secretamente a dor, como se estivesse subitamente sozinho, alheio ao estádio lotado. Seu sofrimento não contava com plateia nem consolação. Assinalava o crepúsculo de uma jornada que, por muito pouco, poderia ter sido majestosa e perfeita.
Foi a cena definitiva do desamparo da estrela, o oposto do seu alegre soco no ar na comemoração da virada sobre o Egito nas oitavas de final.
Ele se despedia do uniforme listrado do azul do céu com o mesmo comprometimento devotado de todas as partidas. Anotou oito gols nesta edição, isolou-se como o maior assistente da história dos Mundiais e encerrou sua trajetória com 21 gols marcados no torneio.
Não levou o galardão de artilheiro, de melhor da Copa, não subiu ao topo do pódio, mas quebrou a barreira do etarismo e cumpriu façanhas que ninguém imaginava serem possíveis, transformando a resiliência em uma arma inesperada, conciliando genialidade, atitude e coragem. Jogou em família, com sua família, com colegas para quem deu autógrafos quando eles eram crianças. Não aceitava perder. Nossa inveja vinha de desejar alguém atuando assim na Seleção Brasileira.
Messi escreveu em sua carta de adeus:
“O mais lindo de todos estes anos nunca foram somente os títulos, mas todo o caminho. Compartilhar o dia a dia com esta equipe, competirmos juntos, levantarmo-nos nos momentos difíceis e desfrutarmos de cada passo”.
Minha mãe se emocionou com Leo como se fosse comigo, como se fosse seu filho, acolhendo o esforço, enaltecendo essas derrotas moralmente vitoriosas que acontecem na vida. E, sem querer, por um breve instante, fui irmão de Messi.





