
Não lidamos mais com dinheiro vivo, grana no bolso, bufunfa na carteira.
E igualmente desapareceu a mania pelo elástico amarelo, o polivalente atilho. Existiam potes cheios dele em casa. Sumiu de nossa rotina. Antes, mostrava-se onipresente.
Com a cor natural do látex extraído da seringueira, esticava quatro vezes o seu tamanho.
Não era utilizado apenas para amarrar maços de cédulas, mas para fechar pacotes de arroz, feijão, açúcar e farinha, atar caixas de sapatos, juntar cartas, enrolar os cabos do ferro de passar e do liquidificador, vedar vasilhas e marmitas, agrupar lápis e canetas, organizar fotografias e cartões-postais, conservar baralhos, prender o cabelo na falta de uma xuxinha à mão e até improvisar um estilingue.
Roubava dezenas do escritório do pai para arremessar bolinhas de papel nos colegas. Ele não percebia o desfalque, munido de sua prodigiosa quantidade espalhada pela escrivaninha, entre sua montanha de clipes, furadores e grampeadores.
Quase ninguém comprava elásticos nas papelarias. Herdávamos das fruteiras, dos Correios, dos bancos e dos armazéns. Formavam um novelo doméstico de possibilidades, pois acreditávamos que seriam úteis em algum momento.
A pequena coleção dizia muito sobre a minha geração, da década de 70, que transformava qualquer objeto reaproveitável em patrimônio.
A mudança de hábitos também levou embora os calendários de mesa, distribuídos por açougues, farmácias e lojas. Pendurávamos na parede. Os dias pareciam passar mais devagar porque havia sempre uma folhinha para destacar. Nas oficinas mecânicas, reinavam as pinups, modelos em poses sensuais. Na época, soavam como pornografia; hoje não se enquadram nem como nude.
Caíram em desuso, ainda, os barbantes para remessas pesadas, os carimbos, as almofadas de tinta, os cartões de visita, as agendas, os panos de prato comemorativos que os supermercados ofereciam na virada do ano, lembrança disputada em longas filas no comércio e que cobria a tampa do fogão.
Mal dispomos de caixinhas de fósforo para acondicionar parafusos e pregos. Ou transportar insetos de um lado para o outro.
As residências se converteram em apartamentos e aboliram gradualmente o porão, a garagem, o quartinho de entulhos. A economia do espaço resultou num desapego violento das bugigangas. Não se guarda mais nada, a não ser uma imagem nas nuvens digitais. Sequer notas são mantidas, tira-se uma foto no celular. Álbuns de retratos, prontos para o tato, com as folhas separadas pelo papel vegetal, remontam à juventude dos avós.
Mergulhamos num tempo sem vestígios físicos, sem estoque, sem repescagem, contra os nostálgicos. Numa confusão de fronteiras, colecionadores agora recebem o estigma do Transtorno de Acumulação Compulsiva. Conservar recordações deixou de ser um traço de personalidade e começou a despertar suspeitas de uma doença.
A extinção não atingiu somente os elásticos amarelos. Perdemos o controle de nossas miudezas e o carinho pelo simples, pelo barato, pela sobrevivência do passado em suas relíquias.
A saudade não tem mais o que agarrar.





