
Rigor não é truculência, disciplina não é sadismo, correção não é tortura, superproteção não é agressão.
O que o pequeno Oliver experimentou em casa jamais será amor. O menino de 3 anos foi espancado e assassinado em Viamão (RS). O pai, missionário norte-americano, confessou o crime. Relatou ter desferido socos no peito e no abdômen da criança, além de ter batido a cabeça dela contra o chão.
Em depoimento à Polícia Civil, afirmou que o estopim para a selvageria partiu de uma banalidade: o filho não lhe disse "bom dia".
A motivação é torpe. O inferno não depende de motivos. A maldade não acata regras, inventa as suas normas de acordo com a sua vontade de humilhar e subjugar.
O menino estava internado em estado gravíssimo na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre e não resistiu aos ferimentos na noite de quarta-feira (8). Foram constatadas múltiplas lesões. Com a contundência dos golpes, seu coração chegou a sair do lugar.
Ele apanhava por não seguir as ordens, ele morreu por não cumprimentar.
Com menos de um metro e nem uma dezena de quilos, ainda um bebê, não pôde se defender. Desamparado, ingênuo, não entendia os gritos, os xingamentos, os castigos e a falta de paz, de colo, de acolhimento tanto do lado materno quanto do paterno.
Já havia herdado hematomas. Mentiras vieram para encobrir a origem. Já havia quebrado o braço, mas apontou-se uma brincadeira com os irmãos como causa. Já circulava com pouca roupa no inverno, mas dava-se um desconto. Já chegava com fome na escolinha, e acreditava-se em exceção.
Não conseguia ser socorrido. Não conseguia ser escutado. Não conseguia ser levado a sério. Não conseguia escapar.
Num ambiente em que se dissimulava forte acento religioso, amargou o pior dos flagelos. Porque Deus nada tem a ver com isso.
Mesmo diante de uma família extremamente vulnerável — sem trabalho e sem renda, com retirada da guarda dos filhos em outro estado e atendimentos médicos locais para lesões suspeitas —, a assistência social de Viamão não enxergou o risco que existia e apenas consumou uma visita em nove meses, entre várias tentativas alegadas.
O casal não apresentava as mínimas condições psíquicas de manter a tutela, com histórico de denúncias de maus-tratos. A Justiça tarda e assim só recolhe os corpos frios, sem esperança, de quem nunca conheceu uma chance de ser feliz.
Oliver não contou com nenhuma oportunidade para se despedir dos seus irmãos de um, cinco, sete e nove anos. A escadinha perdeu um dos seus degraus mais lindos, um dos sorrisos mais esforçados em meio a um cenário de dor. Ele desapareceu de repente, na absoluta falta de explicação, por uma boçalidade inominável.
Não havia como o anjo salvar a si próprio. Tragicamente, salvou os seus irmãos no mais horrendo sacrifício. A impunidade é uma creche de órfãos.


