
Se Endrick fosse francês, seria considerado uma joia, seria posto em campo, teria o destino de Kylian Mbappé.
Quando convocado com a mesma idade de Endrick para sua estreia na Copa, aos 19 anos, Mbappé participou das sete partidas do certame da Rússia em 2018 e assinalou quatro gols. Não foi tratado como promessa, mas como realidade urgente, sendo um dos protagonistas do título.
Só que, no Brasil, Endrick é banco. Não importa que, nas vezes em que o acionaram, tenha correspondido às expectativas e estufado as redes.
O técnico Carlo Ancelotti repete na seleção o que ele já fez com o guri no Real Madrid, quando o deixou como reserva de, ironicamente, Kylian Mbappé.
Diz que ele é do futuro, ou alega que ainda carece de obediência tática, ou até recorre à falsa empatia de não querer sobrecarregá-lo na figura de salvador.
O que não dá para entender é que o apático Igor Thiago seja escalado no ataque, e que Endrick represente a terceira opção, atrás do funcional Matheus Cunha.
Não se desdenha de talento. O hexa exibe a pressa de 24 anos. E é um desperdício poupar um imprevisível artilheiro.
A teimosia de Ancelotti é capaz de nos aniquilar. Que receba uma luz divina. Que aconteça logo, com o Haiti. Precisamos de Endrick mais do que de Neymar. Este está se recuperando de lesão no estertor da carreira, e aquele voando no auge da sua condição física.
Ancelotti pretende que ele exerça uma pressão forte na saída do adversário. Entretanto, o jovem possui como sua principal característica voltar com certa frequência para buscar a bola em posições mais recuadas.
É o equivalente a impedir Ronaldinho Gaúcho de driblar.
É apagar a sua singularidade: o improviso, o chute repentino, a tomada de decisão.
O que falta para o Brasil é iniciativa, justamente o que amaldiçoa Endrick com a reserva.
Espero que o treinador italiano não ceda ao óbvio tarde demais. Porque, com o que estão jogando a França, a Argentina, a Inglaterra, a Noruega e a Alemanha, jamais seremos páreos. Inclusive os Estados Unidos apresentam um futebol mais vistoso.
Qual o grande motivo de rejeição a Endrick, que não é aplaudido e incentivado como deveria pelos seus colegas e a comissão técnica, que apenas leva corretivo e carrinho de Casemiro no treino?
É um estranho no ninho na concentração. Sofre por ser um bom moço. Torna-se assim um novo Kaká, melhor do mundo em 2007, um craque subestimado pelo histórico excessivamente ordeiro.
Não é de balada, de festa, de pagode. Nem da turma das apostas e da boemia. Não se envolve em escândalos.
Define-se como monogâmico, grato e evangélico.
Ao atuar na Espanha, aprendeu espanhol. Ao atuar na França, aprendeu francês. Mostra-se aplicado e devoto aos estudos. Também se comunica em inglês.
É um menino que gastou seu primeiro salário para oferecer uma casa ao pai, Douglas Ramos, faxineiro no Palmeiras.
Endrick não encarna o tipo malandro, passional, louco. Não chega atrasado. Não desrespeita hierarquia. Não solta palavrão.
Que ídolo desejamos?
Pode vir a ser o nosso herói comportado e educado.
Talvez esteja na hora de contrariar os estereótipos de Macunaíma, festejar a habilidade e recompensar os trabalhadores do esporte.




