
Messi e Mbappé fardam a camisa dez de suas seleções e concorrem à artilharia precoce da Copa do Mundo e título de maior artilheiro da história.
Não são extraterrestres, mas obcecados. Eles demonstram prontidão para se posicionar e arrematar porque estão absolutamente concentrados, já ensaiando o mata-mata na fase de grupos.
A sensação é que estão com console nas mãos, controlando a partida e a coreografia de seus colegas. Não têm delay, com decisões segundos à frente dos demais. O raciocínio está no bico das chuteiras, numa distinta rotação mental. O olhar pétreo é de quem se arrisca a tudo, com uma liberdade que intimida seus adversários.
Messi é o passado glorioso. Mbappé é o futuro em aberto.
Mbappé não será alcançado por mais ninguém. Aos 27 anos, coleciona conquistas. Desfrutará de bastante tempo para se tornar o recordista isolado (possui 16 gols, apenas dois atrás de Messi). Não duvido que tirará o trono de seu conterrâneo Just Fontaine, 13 gols numa mesma edição de Copa do Mundo (1958), marca que detém há sete décadas.
Ele é sorrateiro, girando em campo tanto centralizado quanto caindo pelas pontas. Corta para chutar com uma agressividade incomum. Dificilmente é pego na corrida, sendo um dos mais velozes atletas do mundo.
Ambos não precisavam mais provar nada aos seus países, com um título e uma final na bagagem. E a leveza faz com que sejam capazes de proezas inadmissíveis para a lógica de uma competição carregada de nervosismo e tensão.
Com 35 e 39 anos, na última Copa e na atual, Messi somou 12 gols, bem mais do que nas quatro edições anteriores, quando era mais jovem (6 gols). Ele melhorou com a maturidade, rejuvenescido de brio. Lembra o vinho de luxo Nicolás Catena Zapata. Corre como um louco, finaliza como um profeta. Não sei até onde vai na sua derradeira dança.
Ele é o oposto de Garrincha, de Ronaldinho Gaúcho. Não se demora com firulas, capricha na objetividade: mudança abrupta de direção, toque seco, domínio milimétrico e leitura corporal da marcação. Ele se esquiva como num tango. Não estica a perna, conduz a bola como se ela estivesse morando em seus pés, magneticamente presa à sua intenção de avançar. Consegue passar no meio dos zagueiros como um fantasma. Atravessa paredes intransponíveis. Num movimento chamado de La Croqueta, transfere a bola rapidamente de um pé para o outro, para escapar por espaços extremamente apertados entre dois defensores. Ele dribla, explode em arrancada e desespera o vento com seu tiro em curvas.
Em suas participações no torneio, errou três das sete penalidades e não se abateu psicologicamente. Trata isso como mais um incentivo para desequilibrar a disputa. Ele costuma vingar as suas falhas antes que o ressentimento esfrie.
Sinto uma orfandade admirando o francês e o argentino. Nosso dez, Neymar, é uma incógnita. Ainda não entrou nos gramados, enquanto seus rivais produzem encantamentos seriais. Talvez aconteça no jogo contra a Escócia, na quarta-feira (24). Mas é uma expectativa imensa de luz em torno de uma só lâmpada.
Messi me leva a pensar que Pelé não deveria ter abreviado a carreira. Hoje há vida no futebol depois dos quarenta, esperança que não existia naquela época. Ele largou a seleção aos 29 anos, com o tri no México, no seu auge. Poderia ter atuado em 1974, na Alemanha, aos 33 anos, e na Argentina, em 1978, aos 37 anos (um ano depois de sua aposentadoria no New York Cosmos), e inclusive na Espanha, em 1982, aos 41 anos — idade com que Cristiano Ronaldo (Portugal) se encontra, o único a estufar as redes em seis Copas —, na companhia de Zico, Falcão, Cerezo e Sócrates.
Afinal, gênios não envelhecem. Como seria? Ultrapassaria, e muito, seus 12 gols, certamente. E a realeza enganaria Cronos.





