
Messi pode ganhar mais uma Copa, mas nunca alcançará o status de Maradona.
Aumentará evidentemente o seu prestígio como ídolo, será consagrado como uma unanimidade.
Só que, para se equiparar ao Maradona, não basta ultrapassar as suas glórias em campo. Esse é o detalhe decisivo.
Por mais que Lionel contabilize 911 gols, com estatísticas bastante superiores às de Diego, com 346 gols, jamais será suficiente.
Por mais que Lionel possua no currículo igual importância à de Diego na seleção, com uma Copa do Mundo e uma final, jamais será suficiente.
Por mais que Lionel apresente 46 títulos, quatro vezes mais do que Diego, jamais será suficiente.
É que apenas Maradona atingiu o patamar de semideus. Extrapolou a idolatria. Ingressou num território de messianismo que nenhum atleta experimentou. Nem Pelé nos Estados Unidos. Nem Zico no Japão. Nem Cristiano Ronaldo em Portugal.
Atravessou um portal carismático de adoração. Encarnou um fenômeno religioso e social.
Messi é admirado, Maradona é endeusado.
E o fanatismo vai muito além do fato de Maradona ter jogado na Argentina, pelo Boca, pelo Newell's Old Boys e pelo Argentinos Juniors, coisa que Messi não fez.
Guarda relação com o que ele produziu de diferente e extraordinário em situações de completa desvantagem, desde a sua origem.
Nascido na Villa Fiorito (“villa miseria”), ele extrapolou qualquer expectativa. Chegou a declarar: “Sou e serei favelado por toda a minha vida”.
Precocemente, compensou a baixa estatura de 1,65m com velocidade, habilidade e domínio indescritível da bola, como se ela rolasse colada em suas chuteiras.
Despertou arrebatamentos incondicionais de vários povos discriminados e rejeitados.
Na Itália, jogou pelo Napoli, uma equipe distante da elite, e obteve seus primeiros dois títulos da Liga, bem como da Copa da UEFA, objetivos até então inacreditáveis.
Com a conquista do inédito scudetto, os torcedores colocaram uma faixa no cemitério para avisar aos entes queridos falecidos: “vocês não sabem o que perderam”.
Os napolitanos enfrentavam um forte preconceito das ricas regiões do norte do país, que frequentemente lhes atribuíam o estigma de “portadores de cólera” ou “lixo da Itália”.
Surge daí um craque egresso do poderoso Barcelona para atuar em suas fileiras. Um anjo justiceiro. Ninguém entendeu a escolha de Maradona. Ele reverteu o sentimento de inferioridade e criou uma potência da periferia.
Virou santinho, com o rosto grafitado em muros, bares, presépios e altares por toda a cidade. Começaram a tratá-lo como uma divindade, ao lado do padroeiro San Gennaro, por vingar a xenofobia.
Tanto que, depois de sua morte, o San Paolo, arena do Napoli, foi rebatizado oficialmente como Estádio Diego Armando Maradona.
Da mesma forma, na Argentina, El Pibe de Oro (O Menino de Ouro), o gênio castelhano, o herói dos trabalhadores, empreendeu a maior reviravolta política dentro do esporte.
A Copa de 1986 aconteceu logo após a Guerra das Malvinas, uma contenda militar desparelha entre Argentina e Reino Unido. Nas quartas de final, Maradona marcou os dois gols mais famosos da história dos mundiais contra os ingleses — um com mão disfarçada de cabeçada (“La mano de Dios”), e outro em que driblou metade do time adversário, conciliando a malandragem com a técnica, firmando-se como líder de uma revanche pacífica para a nação derrotada e humilhada no conflito.
Maradona é a Evita Perón do futebol, é o Elvis Presley do futebol. Ele morreu em 2020, aos 60 anos, e parece cada vez mais vivo.
Sua cabeleira crespa segue sendo um símbolo sempiterno de fácil identificação pop, como a boina de Che Guevara, como a pinta de Marilyn Monroe.
Nem a sua queda devido ao vício em drogas ou as suspeitas de ligações com a Camorra foram capazes de apagar o seu halo divino.




