
Eu iria embarcar no aeroporto de Brasília na manhã de quarta-feira (3). Como enfrento uma diverticulite, inflamação nos intestinos, sou obrigado a beber uma garrafinha d’água a cada hora.
De repente, chegou uma mensagem de GZH no meu celular: "Anvisa manda recolher lote de água Crystal após identificação de bactéria".
Observei a minha garrafinha recém-comprada. Era justamente da marca comprometida.
Levei um susto. Cuspi imediatamente o gole que acabara de sorver, para espanto dos passageiros. Não é normal um homem virar um chafariz em sala lotada.
A realidade pregava peças comigo. Não bastasse estar doente, agora acrescentaria líquido contaminado ao meu organismo já fragilizado.
Se o céu não tem limite, o inferno não tem fundo.
A medida abrange 374,4 mil garrafas de 500 ml distribuídas no Distrito Federal, Goiás, Tocantins e São Paulo. A decisão foi tomada após o Lacen-DF identificar a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em amostras coletadas na fábrica de Luziânia (GO).
A Pseudomonas aeruginosa é considerada uma bactéria oportunista, uma ameaça para indivíduos com baixa imunidade (eu!), com doenças crônicas ou hospitalizados, incluindo aqueles em tratamento com medicamentos imunossupressores (eu!).
Em pessoas saudáveis, muitas vezes não provoca sintomas ou consequências graves.
O recolhimento é específico a um lote que circulava no estado onde eu me encontrava. Mas os efeitos do pânico de consumo serão incalculáveis. Quem não começará a suspeitar da marca? A prevenção, absolutamente adequada e rigorosa, termina gerando um alarmismo que se propaga no boca a boca além do noticiário. A confiança demora anos para ser construída e pode ser abalada em poucos dias.
Recentemente, no início de maio, motivada pela detecção da referida bactéria, a Anvisa determinou a suspensão de detergentes, lava-roupas líquidos e desinfetantes da Ypê, precisamente os que eu utilizava.
Armou-se um deus nos acuda. E, curiosamente, outro fabricante com a letra Y.
Será um purismo da Vigilância Sanitária? Uma defesa da língua portuguesa? Uma ortodoxia ortográfica?
Surtei. Joguei fora a esponja e descartei meu estoque da cozinha e da despensa no ralo da pia. Com o refugo, causei um transbordamento de espuma que interditou a torneira. Tantas bolhinhas de sabão infectadas, desperdiçadas, sem a contrapartida de um riso e um encantamento.
Por mais que eu buscasse repor os produtos com artigos da concorrência, o corredor de limpeza do supermercado parecia vazio. Todo mundo procurou a suplência ao mesmo tempo.
Passei algumas semanas reprisando a minha infância e lavando pratos, copos e panelas com o velho e fiel sabão de coco.
Já entrei em parafuso com os vetos consecutivos a marcas tradicionais. Sinto medo do meu dedo podre e de, no momento de fazer o rancho, escolher exatamente o próximo item a ser banido da nossa vida doméstica.




