
Nunca tiro a aliança. Nem para tomar banho. Virou um osso do meu dedo.
Não é pelo medo de perder, sou extremamente cauteloso. É orgulho do amor que construímos.
Sequer demonstro receio de que, pela sua ausência, eu possa insinuar disponibilidade.
Sou inteiramente casado: meus joelhos, meus braços, meu coração. Jamais serei solteiro novamente, se Deus quiser. Desejo envelhecer de mãos dadas com minha esposa, minha melhor amiga, minha confidente, meu dueto de projetos e planos, minha maior sonhadora.
Pela primeira vez, carrego o nome de alguém. Por dentro do aro, está inscrito “Beatriz”.
É como se a minha pele fosse extensão da carne dela.
A aliança não deixa de ser um antídoto para o narcisismo. Não sou apenas eu no mundo. Nem no meu próprio corpo.
Até cuidar de mim passou a ser cuidar dela. Somente com o amor, transformamos o egoísmo em generosidade. Você busca durar, permanecer por mais tempo com aquela pessoa de quem você gosta.
Não sou mais inconsequente. A companhia da minha inseparável cúmplice reflete na responsabilidade dos meus atos: na hora de dormir, de comer, de trabalhar. Eu me mostro duplamente atento com as palavras e com o silêncio.
Levar o nome do parceiro que você escolheu para atravessar a vida é um assombro para a minha geração, absolutamente apegada à assinatura, treinada a colecionar pertences.
Preenchíamos cheques, contratos. Fazíamos questão de rubricar a folha de rosto dos livros para ninguém pegar emprestado. Colocávamos etiqueta na esferográfica, no caderno, no estojo, na pastinha, na mochila, na mala. Desde a creche, exercitávamos a compulsão da posse: a toalhinha bordada com as nossas iniciais.
Rumávamos para a soberania da individualidade do RG, da CNH, da carteirinha de saúde. Acumulávamos poses em nosso trono, em nosso cetro da caligrafia.
De repente, você tem mais uma pessoa com você. Em você. E não é você. Você se multiplica para se repartir.
Existe uma transgressão no uso da aliança, uma expansão da identidade.
Ela é também, mais do que uma argola de uma tradição, um elo de confiança personalizado.
Embora você a compre numa joalheria, embora a loja replique peças iguais à sua, exatamente com o mesmo modelo, ela se molda em sua mão de um jeito único, participando de seus nervos, músculos e movimentos. A experiência customiza a joia.
Minha aliança já é muito nós. Já se tornou exclusiva pela intimidade adquirida.
Não é uma cópia. Simboliza o que vivemos, o que enfrentamos juntos, o que superamos lado a lado.
O ouro só cintila porque parte da terra molhada em que pisamos, das tempestades e da crueza do solo às quais sobrevivemos pela amizade incondicional.
Beatriz e eu brincamos um com o outro:
— Não invente de morrer antes de mim.
É a forma mais sincera que encontramos de declarar que jamais nos curaremos da saudade.






