
Quando assisti pela primeira vez, eu jurei que se tratava de mais uma montagem de Inteligência Artificial para ganhar likes a partir de uma simulação de realidade.
Uma mulher é arremessada por três homens num salto de rope jump de uma altura de 40 metros e, de repente, os instrutores percebem tarde demais que não a prenderam com a corda.
Escuta-se alguém gritando no local:
— Gente? A corda!
Não podia ser verdade. Mas o mesmo arremesso apareceu outra vez e outra vez em minha timeline, dos mais diversos perfis, inclusive de fontes verificadas do jornalismo.
Só se falava disso no sábado (13), data do acidente, abafando a estreia do Brasil na Copa.
Eu morri junto na repetição invariável do mergulho inconsequente no precipício, principalmente porque sofro de vertigem.
Não dava para acreditar. Não era IA: era a ignorância humana, era a crueldade humana, era a estupidez humana.
Maria Eduarda, 21 anos, comprou um passeio com trilha guiada e salto de corda do alto de uma ponte desativada, na zona rural entre Limeira e Cordeirópolis, em São Paulo, e acabou vítima do mais puro e incompreensível desleixo. Como não se checou o equipamento antes do pulo? Algo tão óbvio, algo tão básico?
Rope jump, diferentemente do bungee jump elástico, consiste em saltar de grandes alturas preso a cordas estáticas de escalada.
De forma imperdoável, a equipe simplesmente se esqueceu de prendê-la, de conectar os cabos ao corpo, de fazer o check-up.
Numa viagem de avião, a tripulação confere os cintos dos passageiros. Imagine desmerecer esse fundamento num pulo solitário.
Ela voou para seu fim sem saber, iludida, trapaceada, traída.
Confiou nas orientações, achava que seguia devidamente paramentada para logo ser puxada de volta.
Uma perda brutal por ser gratuita, desprovida de significado.
O que me dói é que ela se encheu de coragem, colocou o capacete azul julgando que estava protegida e caiu para nunca mais retornar.
Ela deve ter sentido o vento pressionando o rosto, deve ter concluído que seria apenas uma experiência radical para contar aos amigos, que duraria alguns segundos.
Mas a queda levou a sua vida inteira: o noivado, o contato com a família, os sonhos profissionais de brilhar na carreira de Educação Física e Gestão Esportiva.
Na véspera do momento fatal, ela chegou a publicar uma mensagem em seus stories:
— Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte?
Ainda brincava, alheia à gravidade da falta de segurança. Pensava que seria uma superação de seus medos, uma provação para postar depois em suas redes sociais.
Apesar do helicóptero acionado para o resgate, não havia mais esperança de salvamento.
A polícia deteve os três responsáveis pelo salto. Segundo a delegada que efetuou o registro inicial do caso, eles foram autuados em flagrante por homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco de provocar a morte de outra pessoa).
A empresa não contava com regulamentação nem autorização para operar na área, na Ponte do Esqueleto.
Até o sol fechou os olhos, cobrindo-se com as nuvens ao seu redor. O céu se negou a se abrir naquela manhã, diante de uma existência ceifada por engano.






