
Perder, ganhar: é do jogo.
Um atleta se constrói pela memória de suas vitórias e de seus fracassos.
O esporte não é apenas de taças e medalhas, mas também do árduo aprendizado de nem sempre ocupar o degrau mais alto do pódio.
No documentário em cartaz no cinema O Samurai de Quintino, sobre a trajetória de Zico, descobrimos que o camisa dez da seleção brasileira anotava todas as suas partidas num caderno, com a descrição do seu desempenho.
Encontrava paciência e humildade para evocar detalhes de um embate que acabara de se encerrar.
Estão ali, com sua caligrafia, seus 800 gols, incluindo amistosos e torneios não oficiais.
Coisa alguma escapava da captura de sua letra em 23 anos de gramado, sequer os oito pênaltis que não converteu. Em vez de imortalizar unicamente suas façanhas, não se distraía da isenção e assinalava suas falhas.
Ainda que obtivesse 90% de aproveitamento de penalidades, uma performance assustadora, jamais se mostrou complacente consigo. Não deixou de apontar um dos seus momentos mais tristes, quando lesionado, quando no sacrifício, ao desperdiçar a cobrança nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, contra a França. Apesar de frio, entrando no fim do mata-mata, e com o placar empatado em 1 a 1, ele teve a chance de colocar o Brasil na frente no segundo tempo, mas o goleiro francês Joël Bats defendeu o seu arremate.
Qualquer craque como ele repassaria a tarefa para assessores. Porém Zico fazia questão de empreender sozinho o inventário da própria vida. Ele já percebia a diferença entre recordar e registrar. A recordação absolve, a escrita não.
Escrever é se comprometer com a verdade. O caderninho funcionava como um espelho da sua naturalidade, uma maneira de mandar o seu ego prestar contas.
Já consagrado, já ídolo, já campeão mundial pelo Flamengo, já dono de dribles desconcertantes, já autor de faltas postas no ângulo, não se eximia da sinceridade inadiável de não editar a sua história. Porque o grande artilheiro é formado tanto de gols quanto da capacidade de conviver com os gols que não marcou.
Impressiona que ele não tenha usado o seu diário para forjar uma lenda, mas para impedir que a lenda apagasse o homem.
Na fama, costumamos selecionar as lembranças, reservando espaço exclusivamente para os aplausos e escondendo as vaias. Não permitimos o contraponto, a aparição dos defeitos para filtrar uma narrativa fora de série.
Em uma época instagramável, fica a lição daquele que não falsificou a sua biografia.
O meio-campista não queria ser lembrado como alguém que ele não foi. Queria saber exatamente quem ele era.
Zico não desejava se esquecer de Arthur Antunes Coimbra, o menino franzino, o jovem tímido ligado aos irmãos e à turma do seu bairro, o estudante que concluiu a graduação em Educação Física no contraturno, de modo simultâneo ao calendário de campeonatos e treinos.
Mantinha contato com as suas versões inteiras, preservando o caráter zeloso e vigilante de quem não se atrasou para nenhum coletivo ou voo, dotado da disciplina para atingir o máximo sendo o mais honesto possível com os seus limites.
Não abriu mão da pontualidade, do respeito, da cordialidade, nunca se achando melhor do que ninguém.
Há reveses que ensinam mais do que os troféus. Há derrotas que são patrimônio da depuração.
Você pode até se esforçar para chegar ao topo. Contudo, nada se compara ao trabalho para permanecer nele.
O samurai Zico, unanimidade no Brasil e no Japão e admirado na Itália — os três países em que atuou —, compreendeu isso antes de muitos colegas. Não se mascarou para os outros. Anotava os dois lados da glória, os dois lados de si mesmo.



