
Quando você é jovem e sente um desconforto, logo procura tratamento. Deseja solucionar o caso sem demora. Marca uma consulta para se medicar o mais rápido possível.
Já ao amadurecer, parece que aprende a conviver com o sofrimento. Sua resiliência é maior. Não se dobra para os incômodos. Porque entende que jamais estará cem por cento. Sempre arcará com algum porém. Suporta um joelho falhando, ou uma sensação de rigidez nas costas, ou uma câimbra, ou uma enxaqueca. Espera para ver se vai passar. Sabe que, se fosse levar a sério cada anormalidade, viveria internado.
Sou assim. De repente, é o travesseiro arranhando o meu olho, ou é a minha coluna protestando contra o peso da mochila, ou é uma complicação na alimentação, por excesso de glúten ou intolerância à lactose. Monotonia e estabilidade, só morto. Eu tenho saudade de quando esquecia que havia um corpo. Ele deixou de ser invisível. Na infância e adolescência, o corpo é transparente, inaudível, apenas um veículo. Envelhecer é escutá-lo o tempo inteiro, como um rádio ligado com noticiário 24h.
Verifico, antes de sair de casa, a meteorologia e o clima do meu metabolismo.
Não desperto no automático. Calmamente realizo um inventário para conferir se tudo está em ordem, tudo comigo. Checo os meus músculos e nervos.
Relevo as pontadas, as cólicas, os problemas. A dor me humilha, mas não me mata. Eu tento me queixar o mínimo possível para não ser despejado pela esposa. As reclamações iriam se repetir. São cíclicas. Guardo a chatice para mim. Carrego uma nécessaire com todos os remédios de todos os especialistas que frequentei recentemente. Não me apavoro. Transporto mais farmácia do que livraria.
Nem preciso gastar com perfume, a arnica é o meu cheiro natural.
Há uma diferença entre o mal-estar alarmante da juventude e o mal-estar conhecido da maturidade. Quando jovem, um sintoma surge como uma catástrofe. Depois, você cria intimidade com os defeitos do organismo.
Seria desonesto de minha parte se eu negasse que existe um orgulho silencioso de vencer as adversidades e continuar funcionando apesar dos ruídos. Adquiri uma vaidade de me manter produtivo mesmo capengando. Não cancelo nenhum compromisso. Aguardo a manhã seguinte.
Estabeleço pequenos rituais de sobrevivência. Não me sento mais em qualquer cadeira. Não me acomodo mais de qualquer jeito. Nunca pensei que ganharia como aliados a bolsa térmica, a pomada, a almofada estratégica.
Comecei a me preocupar com o colchão do hotel, a portabilidade da mala, o assento no avião, a distância da caminhada, a salada dos restaurantes, coisas que eu sequer cogitava nas viagens.
Minhas prioridades mudaram. Um dia sem dor é meu feriado.
Nesta semana, acabei sorteado com uma inflamação no intestino. Se você quer um álibi na doença, telefone para a sua mãe. Ela não somente acredita no seu adoecimento, mas também exagera.
Expliquei para a minha mãe que eu estava com diverticulite.
Dona Maria me perguntou, bem tragicamente:
— Não foi disso que morreu o Tancredo Neves?





