
Você não nasce filho, você se torna filho.
É também uma decisão.
E, de repente, nem se definirá pelos pais biológicos, mas talvez por um padrasto ou madrasta, um avô ou avó, um tio ou tia, um professor ou professora marcante. Alguém que representará a figura de tutor, conselheiro, confidente.
Não se morre órfão neste mundo.
Virá a ser a escolha mais retardatária da sua vida, a sua última grande escolha. Há quem seja pai ou mãe, irmão ou irmã, marido ou esposa antes de desempenhar efetivamente esse papel. Demora-se a assumir conscientemente a opção.
Há quem se descubra nos derradeiros diálogos com os seus protetores, no leito do hospital; há quem se descubra segurando o seu bebê nos braços, ao sair do berçário; há quem se descubra no meio de uma crise de identidade, ou num divórcio, ou por não suportar mais a pressão no trabalho.
Instaura-se um portal de identificação, e você faz o caminho de volta da sua origem. Aproxima-se com os flancos abertos, com as feridas recentes, e o sangue fala quente em seu lugar.
Em algum momento, você passa para o outro lado do balcão e entende que seus pais não são funções, mas pessoas como você, com os mesmos medos, vacilações, inquietações e frustrações. Você estará oferecendo atenção, não mais só demandando. Você buscará saber como eles estão, não fugindo das perguntas pessoais e diretas. E, principalmente, vai se interessar por quem eles são, quem eles foram antes de seu nascimento, parando de orbitar ao redor de si pela primeira vez. O passado deles se mostrará tão misterioso quanto o futuro.
Irão rir como nunca, irão chorar como nunca, irão se escancarar como nunca.
Serão reveladas doenças, sonhos interrompidos, castigos, flagelos, desilusões que sequer imaginava que eles tivessem experimentado. Haverá uma franqueza que acolherá as fraquezas. Você humanizará o convívio, terminando com a via de mão única de pedir ajuda.
Compreenderá e respeitará os limites de cada um, perdoará aquilo que recebeu deles diante do que eles receberam na infância e na adolescência.
Acabará com aquela estranheza íntima de conhecer sem se aprofundar, de olhar sem ouvir.
Parecia que a designação era automática, então você não reparava no quanto relutava em dar esse passo ao corredor do encontro – como aprender a andar na alma depois de tanto engatinhar.
Já que você jamais chamava os dois pelos seus nomes, apenas de “pai” ou de “mãe”, esquecia as suas individualidades, os seus desejos, as suas idiossincrasias.
Queria a disponibilidade deles sem contrapartida.
É um instante transformador, de vulnerabilidade mútua, em que caem as capas da idealização e as máscaras dos traumas.
Seus pais são melhores do que super-heróis: gente de carne e osso que depende do seu colo, do seu abraço, do seu conforto, em quem você pode confiar e para quem pode contar tudo. Não precisa esconder mais nada.





