
A faxina é uma solidão.
Ninguém enxerga. Você pode se debruçar nas janelas para desencardir os vidros, praticar malabarismo em cima de uma escada, mas os familiares olharão a paisagem.
Você pode tirar os móveis e a geladeira do lugar para remover a sujeira de frinchas, esconderijos e vãos, e não serão destacados os méritos do seu esforço.
Você pode encerar o chão, e não receberá nenhum elogio sobre o brilho.
Unicamente você sabe o que você faz: o trabalho hercúleo e insano de suas reparações e consertos. Não há como propor visita guiada de museu para apontar uma por uma das transformações do espaço. Não contará com quórum.
Sua proeza de aspirador, pano e esponja não é mensurável para aqueles que utilizam exclusivamente o olfato e sentem apenas o cheiro agradável da lavanda.
Além de ferir sua vaidade e amor-próprio, a maldição da invisibilidade atinge sua relação com o mundo. Você não quer mais morar em sua casa. Seu desejo é dormir em hotel para manter tudo em ordem. Para não profanar a beleza recém orquestrada de seu habitat.
Você sofre ao pensar em tomar banho e respingar novamente o box com espuma. Vêm pontadas de cólicas ao se imaginar cozinhando e sujando a louça. Surge indisposição de andar pelos corredores e espalhar algum farelo da sua presença.
Até para sentar no sofá, você se encosta na ponta dele para não amassar as almofadas.
Na verdade, todos os faxineiros gostariam de desaparecer.
Seguem uma gincana mental rigorosa. Não perdem tempo. Cumprem etapas cronometradas: uma hora para os quartos, uma segunda hora para a sala, uma terceira hora para os banheiros, uma quarta hora para a lavanderia. Assim por diante.
Eu não acredito em faxina com duração inferior a três horas. Menos do que isso, é tapeação.
Para obter seu status e sua carteirinha no Inmetro, o responsável pela arrumação também precisa realizar o rancho no supermercado, para escolher os itens certos. Não há como confiar nos outros, encomendar lista; talvez tragam as marcas concorrentes por preguiça e desconhecimento técnico da área de atuação.
Tanto que só o faxineiro observa os efeitos danosos da reduflação — muitos produtos de consumo diário diminuíram de tamanho ou peso ao longo dos anos, permanecendo com o preço inalterado. Sabão em pó, amaciante e papel higiênico frequentemente têm suas embalagens reduzidas para evitar a mudança do valor a ser cobrado. Esse fenômeno é uma patifaria com quem é do lar: aquilo que rendia por um determinado período acaba antes.
O mascaramento da quantidade acarreta o extravio da noção do estoque e o desespero durante a limpeza ao perceber os potes repentinamente vazios.
O faxineiro não desfruta de aliados para urgências, tampouco conserva a esperança de preparar herdeiros, de repassar o seu serviço para os mais próximos. É um eremita da iniciativa.
O povo caseiro é bem capaz de notar o apocalipse tarde demais, depois de usar o último prato, o último copo, a última peça de roupa, a última réstia da sua paciência.




