
Encontrei a fotógrafa Liane Neves no Moinhos de Vento. Ela estava exultante porque sua amizade com Mario Quintana está se tornando filme, Minha Sombra Luminosa, com roteiro e direção de Tomás Fleck, em meio às celebrações dos 120 anos de nascimento do autor.
Em 1986, Liane Neves não foi bem recebida pelo poeta, que odiava efemérides e sequer quis posar para um ensaio sobre seu apogeu octogenário. Mas ela insistiu, com charme e simpatia, e conquistou o coração de seu temperamental modelo.
A obra estreará em 2027, retratando essa confiança cativada lentamente entre dois mundos: o da fotografia e o da escrita.
Com a ficção chegando às telas, uma lacuna de justa homenagem passa a ser preenchida.
Quem vai gostar de ver parte da história de Quintana nos cinemas é meu pai, que conviveu com o bardo. Só lamenta não ter sido seu colega na Academia Brasileira de Letras – Carlos Nejar é o único imortal gaúcho (somente contou com a companhia de Moacyr Scliar, de 2003 até a despedida dele em 2011).
Como é de conhecimento geral, Mario Quintana buscou ser acadêmico e terminou recusado em três ocasiões, perdendo a vaga para figuras políticas. Ao invés de se submeter a uma quarta tentativa, o poeta satirizou com o famoso Poeminho do Contra: “Todos esses que aí estão/ Atravancando meu caminho / Eles passarão… / Eu passarinho!”.
Quintana, há muito, merece uma caudalosa biografia, por se tratar de um lírico que consagrou o soneto, as reticências, os nossos diminutivos, a nossa ironia, o nosso desencanto. Se eu fosse biógrafo, já daria o título: “Eu passarinho”. Na contracapa, colocaria: “Eles passarão”.
Para o meu pai, aos 87 anos, é difícil andar por Porto Alegre. Ele palmilha o previsível luto nas esquinas mais inesperadas.
Seus principais amigos intelectuais faleceram, e se transformaram em logradouros e monumentos. O próprio Quintana dá nome à Casa de Cultura, antigo Hotel Majestic em que se hospedou, e possui uma estátua na Praça da Alfândega. Erico Verissimo virou avenida. Paulo Gastal se converteu em sala de cinema. Manoelito de Ornellas tomou a forma de rua.
Deve ser estranho percorrer a cidade tendo seus cúmplices de literatura como referenciais geográficos, desprovidos da pessoalidade do abraço. Estão tanto no Waze quanto nos compêndios e manuais escolares.
Aqueles que integravam seu círculo íntimo, com os quais trocava confidências e particularidades do processo criativo, não são mais gente de carne e osso, mas projeções, lugares, ectoplasmas.
Não existe como não se sentir um pouco morto, um pouco anacrônico, um pouco póstumo. É ir ficando cada vez mais isolado e ilhado de recordações, a ponto de não ter com quem tirar dúvidas de certos fatos e acontecimentos, pela total ausência das testemunhas oculares.
Meu pai não precisa visitá-los no cemitério e prestar oferendas – as lápides estão misturadas na cartografia urbana, entre placas azuis e bustos.
Não há maior solidão do que sobreviver. O quanto dói ser o último a apagar as luzes de uma época, portar um idioma extinto, resistir vivo dentro de tempos findos.





